Armação dos Búzios

Descrição Geral: Município localizado a cerca de 180 km a noroeste da cidade do Rio de Janeiro. É uma península com 8 km de extensão que possui 23 belas praias e importante planície alagada no interior. Sua principal atividade econômica é o turismo. Búzios é considerado um dos balneários mais charmosos do mundo, com uma gastronomia, artesanato e comércio de grande qualidade. No entanto, a simpatia de seus moradores, a beleza primitiva de suas praias, alagados, fauna e flora, são incríveis atributos que destacam a simplicidade e a grandiosidade da natureza local.

Geologia: As rochas do município são especialíssimas! Particularmente importantes são aquelas que se parecem com mil folhas e ocorrem nos costões de muitas das praias da península. Ao serem estudadas, identificou-se que faziam parte da base de uma gigantesca cadeia de montanhas há 520 milhões de anos. Este é um dos registros da colisão de massas continentais que formaram o supercontinente Gondwana, semelhante ao que ocorre hoje no Himalaia. Hoje a maior altitude do município não ultrapassa 200 m. O processo de formação de montanhas é denominado orogenia. Nestas rochas foi datado o último evento de colisão entre a África e a costa brasileira. Os geólogos a denominaram de Orogenia Búzios.

Histórico: O pioneiro nome de batismo português da península foi “Ponta dos Búzios”, devido à presença de numerosas conchas de grandes moluscos gastrópodes em suas praias. Estas conchas eram utilizadas como adorno e buzina. Naqueles tempos prenunciavam os combates e, até 1965, ainda podia ser ouvido o som das buzinas, dos vendedores de peixe, anunciando a mercadoria fresca pelas ruas da península. Sambaquis foram descritos na região, indicando que antes dos tamoios, a região já era ocupada por populações mais antigas. Essa palavra de origem tupi-guarani significa “amontoado de conchas” que, em conjunto com numerosos artefatos de rochas, ossos, espinhos, entre outros, dão indicação do modo de vida pré-histórico. No século XVI, quando chegaram os primeiros exploradores europeus à região, a área ainda era ocupada pelos tamoios, que praticavam a pesca, a caça e o cultivo de mandioca. A Praia de Caravelas ganhou este nome porque ali teriam aportado as primeiras embarcações no Cabo Búzios. A precária presença portuguesa em Búzios favoreceu a estadia episódica de embarcações francesas e inglesas no porto da península. Segundo historiadores, o ancoradouro na Ilha do Caboclo serviu como apoio terrestre às longas viagens transoceânicas, base naval de pirataria contra a navegação portuguesa e espanhola, e tráfico de pau-brasil que se fazia com a ajuda de jesuítas e índios catequizados. Também se caçavam baleias para a extração de seu óleo, que era usado tanto para a iluminação da cidade do Rio de Janeiro (também usado para argamassa das construções) quanto para exportação. Com a construção da Armação das Baleias de Búzios, estabelecimento comercial, passa a ser incorporado o vocábulo “Armação dos Búzios”. Os ossos dos animais capturados eram enterrados numa praia situada ao lado da Praia da Armação e que, por isso, acabou por ser chamada Praia dos Ossos. Em meados do século XVII, o município era uma pequena vila de pescadores e caiçaras, com cerca de vinte casas. Durante a década de 1950, a Praia da Armação foi o sítio preferencial das primeiras residências de veraneio, visto que algumas famílias da burguesia – atraídas pela beleza paradisíaca, exuberância da caça submarina e proximidade relativa da cidade do Rio de Janeiro – começaram a frequentar a península e ocupar os antigos imóveis senhoriais da enseada portuária. Fato que todos registram é a temporada de férias da atriz Brigitte Bardot, em 1964. A presença em Búzios da mais famosa estrela do cinema francês foi noticiada exaustivamente pelos meios de comunicação nacionais e internacionais. Búzios era o 3° distrito do município de Cabo Frio até 12/11/1995, quando, por meio de plebiscito, foi emancipado pela decisão dos seus cidadãos, seguindo o processo que já ocorrera com Arraial do Cabo em 1985.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

MANGUE DE PEDRA E PALEOFALÉSIAS DA PRAIA RASA
Localização: 22º43’56.63” S; 41º58’23.22” O
Descrição: O acesso a esta área se faz pela estrada que liga a Rodovia Amaral Peixoto a Búzios. Antigas falésias que foram ativas quando o nível do mar esteve cerca de três metros acima do atual há cerca de 5.100 anos A.P. Espessos pacotes de conglomerados da Formação Barreiras foram formados por leques aluviais condicionados pela movimentação da Falha do Pai Vitório (Morais et al. 2006), localizada nas proximidades. Importante também é a ocorrência do Mangue de Pedra da Praia Gorda, localizados após a colônia de pescadores da Praia Rasa. A existência deste ecossistema singular, um manguezal sobre rochas e longe de foz de rios, está associado à descarga de água doce do aquífero das paleofalésias. A localidade tem importância científica (paleoambiental, sedimentar, hidrogeológica, tectônica, geomorfológica e botânica), além de valor cultural pela presença de comunidades remanescentes de quilombolas na área.

PONTA DA LAGOINHA / FOCA / FORNO
Localização: 22º46’15.83”S; 41º52’41.94” O (coordenada da Ponta da Lagoinha)
Descrição: Em Armação dos Búzios, existem diversos painéis dos Caminhos Geológicos (Ponta da Lagoinha, Praia de Geribá, Orla Bardot e Pórtico Turístico) tratando da amalgamação e quebra do Gondwana, porque nas rochas ali expostas foi datada a Orogenia Búzios (Schmitt 2001). Na região da Lagoinha, Foca e forno existem espetaculares feições e paisagens. São rochas foliadas e dobradas, demonstrando as altas pressões e temperaturas a que foram submetidas no episódio de colisão. Aí se encontra a sessão-tipo dos paragnaisses Búzios, com seus minerais de alto grau metamórfico e uma rara estrutura de pseudomorfo de sillimanita sobre cristais de cianita. Os painéis localizados no costão ajudam a reconhecer minerais e estruturas. Estas rochas foram sedimentos em um mar que se fechou entre 500 e 520 milhões de anos, período da colisão continental. Esta região é das mais belas de Búzios e não se deve deixar de conhecer a Praia do Forno, com suas areias rosadas pela presença do mineral granada, muito abundante nas rochas do costão. Também, na Praia da Foca, pode-se observar uma brecha tectônica silicificada representativa de falhamento, diques e um pequeno mangue de pedra.

PONTA DO MARISCO / GERIBÁ
Localização: 22º 46’56.87” S; 41º54’58.02” O
Descrição: A Ponta do Marisco é acessada na porção sul da Praia de Geribá, no limite com a Praia de Tucuns. O painel dos Caminhos Geológicos apresenta os dois principais tipos de rocha do local: uma mais antiga, com cerca de 2 bilhões de anos, presente em muitos locais da região, metamórfica, com foliação bem marcada; e a outra, mais recente, ígnea, representada por diques de basalto, rochas típicas do fundo oceânico, com idade de aproximadamente 130-120 milhões de anos, que representam a quebra do antigo continente Gondwana e formação do Oceano Atlântico. As estrias de falha existentes na parede do dique e os xenólitos ali existentes são exemplos extremamente didáticos.

PRAIA DE JOSÉ GONÇALVES
Localização: 22°48’37.19″ S e 41°56’32.30″ O
Descrição: Este geossítio corresponde à sessão–tipo da Suíte José Gonçalves, descrita por Schmitt et al (2009) como “corpos tabulares de (cpx-granada) anfibolitos com granulação média a fina cortando os metagranitos e ortognaisses do Complexo Região dos Lagos, formando contatos bruscos intrusivos. Possuem espessuras desde poucos centímetros até 5 metros. Apresentam-se dobrados e boudinados, muito raramente mostram textura de fusão parcial in situ”. Seus megaboudins já estamparam a capa da revista Episodes. Na praia Ramos et al (2005) identificaram dois níveis de cascalho que correspondem a terraços marinhos holocênicos. Faz parte do Parque Estadual da Costa do Sol e da APA do Pau-Brasil.

PRAIA DO FORNO
Localização: 22°45’40.2” S; 41°52’31.2” O
Descrição: A bela enseada da Praia do Forno destaca-se por sua areia cor-de-rosa e costões rochosos. É importante que se perceba a relação existente entre essas areias e rochas peculiares. O aspecto de “mil folhas” da rocha do costão é explicado pelo fato dela ter passado pelo processo de metamorfismo há cerca de 500 milhões de anos, quando pressões e temperaturas associadas a um ambiente geológico, cuja profundidade é calculada em cerca de 9 km, levou à geração de minerais específicos dessas condições. Naquela época a região se encontrava em situação tectônica semelhante àquela existente hoje na base da Cordilheira dos Himalaias. Assim, ocorre essa rocha metamórfica, foliada e dobrada, cujos minerais mais comuns em sua composição são quartzo, feldspato, biotita, granada, sillimanita e cianita. Maiores detalhes sobre a origem geológica dessas rochas e sobre os principais minerais nela presentes podem ser obtidos nos painéis do Projeto Caminhos Geológicos do DRM-RJ, em especial naqueles relativos à Ponta da Lagoinha, localizada bem perto da Praia do Forno. Após 500 milhões de anos, muitos processos internos e externos, entre eles a quebra do Supercontinente Gondwana e a respectiva separação entre a África e a América do Sul, trouxeram estas rochas à superfície. Como elas se formaram em altas pressões e temperaturas, há um desequilíbrio químico e físico quando os minerais entram em contato com as condições ambientais vigentes e, assim, começam a sofrer um processo de alteração que é denominado intemperismo. Chuva, vento, sol, ondas, raízes de plantas, ácidos no solo e muitas outras intempéries fazem com que os minerais, alguns mais do que outros, se transformem para formas mais estáveis às novas condições. Assim, a rocha vai se desagregando, ou seja, vai sendo erodida e os minerais mais alterados, ou não, são transportados (por ventos, rios, geleiras, etc.) na forma de sedimentos (partículas). Quando se observa em lupa a areia da Praia do Forno, nota-se uma alta concentração do mineral granada, que é vítreo e de cor vermelha e rosa. Seu nome deriva do latim granatus (grão) de onde também foram baseados os nomes granada (em espanhol) ou pomegranade (em inglês), referindo-se à fruta romã, cujos grãos são arredondados e avermelhados. Em geral, nas areias das praias há predomínio do mineral quartzo, que é vítreo e incolor. No entanto, ele é mais leve (menos denso) que a granada. Assim, pelo lento trabalho das ondas, o quartzo é retirado da praia e levado para o mar, enquanto a granada, mais densa, permanece na praia em alta proporção. Assim é explicada a cor da areia da praia e os processos da dinâmica interna e externa que modelam a belíssima paisagem da região, que é tombada como patrimônio cultural do Estado e também faz parte do Parque Estadual da Costa do Sol. No Espaço da Geodiversidade, localizado na Casa Sustentável de Armação dos Búzios (Estr. da Usina Velha, 600 – Centro), existe uma exposição das areias de todas as 23 praias de Búzios. Durante a visita, vale observar os diferentes tipos de areias em termos de composição e granulometria. Uma rica geodiversidade a ser explorada!

NASCENTE DO QUILOMBO DA BAÍA FORMOSA
Localização: 22°46’06.4” S; 42°00’09.5” O
Descrição: A Nascente do Quilombo da Baía Formosa é um geossítio muito significativo para a preservação da história dessa comunidade remanescente quilombola. Serviu durante muito tempo como fonte de abastecimento de água para os povos africanos escravizados que foram trazidos para essa região do Brasil. Além de sua importância cultural, pela preservação da memória do dia-a-dia do Quilombo, a nascente é resultado de um conjunto de processos geológicos muito interessantes que tornam essa região peculiar e muito relevante na área do nosso Geoparque. Esta combinação de fatores também aponta para a possibilidade de inserção da localidade no projeto de turismo étnico-ecológico desenvolvido pelo Quilombo. A população remanescente do Quilombo da Baía Formosa, originalmente, veio escravizada para o Brasil e se refugiou nessa região, formando essa comunidade que se sustentou durante anos em coletividade e harmonia, colocando em prática diariamente os costumes trazidos da África. Em 2011, foi fundada a Associação dos Remanescentes do Quilombo da Baía Formosa, reconhecida no ano seguinte pela Fundação Cultural Palmares. Desde então, os integrantes participam de movimentos socioculturais através, por exemplo, da culinária e do turismo, que tem como foco a disseminação e fortalecimento da cultura quilombola. Desde a sede da Associação, na região conhecida como Fazendinha, no município de Armação dos Búzios, o percurso até a nascente se faz por caminhada de cerca de 6 km em meio à vegetação de restinga e algumas lagoas. A vasta planície é marcada, também, por algumas áreas onde a vegetação é mais exuberante e úmida. Este é o caso da área da nascente. A formação de uma nascente se dá quando a superfície do terreno intercepta a do lençol freático. Já o lençol freático é definido pelo nível alcançado pela água mais próximo da superfície do terreno. A água ocupa os espaços vazios entre os grãos dos sedimentos, solos ou entre as fraturas das rochas presentes. A nascente dos quilombolas surge de maneira inesperada. Em meio à planície formada por sedimentos marinhos e lagunares, depositados há cerca de 5 mil anos quando o nível do mar esteve quase 3 metros acima do atual, há um afloramento de rocha em meio a uma pequena floresta. Esta rocha é um gnaisse (rocha metamórfica), cuja idade foi calculada em cerca de 2 bilhões de anos, e são chamadas de rochas do embasamento cristalino. Trata-se das rochas identificadas como sendo parte do terreno africano que ficou retido no Brasil, quando da separação da América do Sul e da África. A água das chuvas se infiltra nas areias da grande planície e migra através dos poros até chegar às rochas do embasamento, percolando ao longo de suas fraturas. Essa água circula pelas fraturas até surgir na superfície, no local da nascente, porque atinge uma fratura que está conectada com a superfície. Com o passar do tempo, ela foi alterando a rocha e hoje podem ser vistos dois “olhos d’água”, buracos, um com 3 m e outro com 80 cm de profundidade. Segundo os quilombolas, ela nunca secou. Análises de parâmetros físico-químicos da água realizadas pela equipe do Projeto de Extensão da UFRJ, para construção do Geoparque Costões e Lagunas do RJ, indicaram muito baixa salinidade e pH próximo ao neutro. Deste trabalho resultou a produção de um painel interpretativo sobre a nascente e um sobre outra localidade de interesse cultural para o Quilombo. Os dois painéis foram entregues aos membros do quilombo em atividade de compartilhamento de saberes e podem ser acessados em nosso website. Hoje, eles podem associar a geologia em suas atividades. Talvez, um dos aportes de conhecimento mais importantes que nosso projeto pôde fazer ao Quilombo da Baía Formosa foi a discussão sobre a evolução geológica das rochas do embasamento onde está localizada a nascente. Os gnaisses pertencem ao denominado Terreno Cabo Frio, inserido totalmente no território do nosso Geoparque. Estas são consideradas rochas africanas que caprichosamente se mantiveram coladas ao continente sul americano após a separação há 130 milhões de anos. Esta ligação geológica reforçou, também, o senso de pertencimento ao território atual do Quilombo porque ligou as rochas daqui à ancestralidade africana. O Quilombo da Baía Formosa, em termos geológicos, está na África!

Deixe seu comentário: