Campos dos Goytacazes

Descrição Geral: Município histórico do litoral Norte do Estado. Seu território é cortado pelo Rio Paraíba do Sul. É o maior município em extensão territorial do Estado e possui diversos solares e sobrados históricos. Conta com importantes reservas de petróleo e gás natural na Plataforma Continental relativa à Bacia de Campos. Também se destaca pela agricultura, o comércio e a cerâmica.

Geologia: Na área de Campos há um embasamento cristalino constituído por rochas ígneas e metamórficas formadas durante a colisão que amalgamou o paleocontinente Gondwana. Também ocorrem depósitos da Formação Barreiras, constituídos por sedimentos continentais argilosos e argilo-arenosos datados em cerca de 10 a 20 milhões de anos. Nesta área, encontram-se depósitos arenosos flúvio-marinhos formados nos últimos 120 mil anos, com a migração da foz do rio Paraíba do Sul desde a Lagoa Feia e pela variação no nível do mar nesse intervalo.

Histórico: O município de Campos foi fundado em 28/03/1835, mas sua história pode ser contada desde meados do século 16, quando Dom João III doou a Pero Góis da Silveira a capitania de São Tomé, cujo nome, posteriormente, passou a Paraíba do Sul. Com a chegada dos portugueses na região, começou a luta com grupos indígenas da etnia goitacá, que habitavam as aldeias lacustres, porém não se desenvolveu um processo ocupacional. Em 1627, por ordem da Coroa Portuguesa, a Capitania de São Tomé foi dividida em glebas, doadas a sete capitães portugueses, alguns deles donos de engenho na região da Guanabara, efetivando a ocupação. Em 1650, foi implantado o primeiro engenho em solo campista. Visconde d’Asseca funda a vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes em 1677, dominando a região por quase um século. Neste período, há grande expansão pecuária. Em 1750, ocorre a queda dos Assecas e a partir daí a expansão da cana-de-açúcar, possível pela divisão dos grandes latifúndios. A Vila de São Salvador dos Campos foi elevada à categoria de cidade em 28/03/1835.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

PEDRA LISA
Localização: 21°48’51.18″ S; 41°23’18.47″ O (Distrito de Morro do Coco)
Descrição: A Pedra Lisa, localizada no distrito de Morro do Coco, ao norte do município de Campos dos Goytacazes, é um geossítio que se destaca por sua beleza. A ciência que estuda as formas de relevo é denominada Geomorfologia e os sítios que se destacam pela geomorfologia são chamados geomorfossítios. O aspecto interessante desse monólito (mono = 1 + lito = rocha), além de sua altitude que ultrapassa 700 m, se dá pelas diferentes formas que ele adquire, dependendo do ângulo de observação. Em um dos lados, a feição é pontiaguda, como um dedo indicador apontando para o céu. Olhando para outra face, observa-se um paredão íngreme, mais arredondado. Isto ocorre devido à forma do maciço rochoso que é alongado e íngreme. A Pedra Lisa é uma das montanhas mais bonitas do estado do Rio de Janeiro, além de ser um local de escolha de muitos escaladores. A data da conquista da sua principal via de escalada é 15/02/1953 pelos montanhistas Alfredo Maciel, Francisco Vasco dos Santos e Tued Malta de Campo. Ali também há um hotel fazenda, que se abastece com águas de fontes naturais geradas pela infiltração e descarga da água das chuvas que percola pelas fraturas da rocha. Aliás, a imponente exposição rochosa resulta da erosão diferencial entre dois tipos de rochas. As mais altas são mais resistentes às intempéries (ação da chuva, vento, insolação, resfriamento, etc.). A mais velha, e menos resistente, possui entre 635 a 620 milhões de anos e é classificada como um paragnaisse, ou seja, uma rocha metamórfica formada em ambiente de pressão e temperatura altas que atuaram sobre sedimentos marinhos. Já a Pedra Lisa e suas companheiras rochosas das proximidades são rochas ígneas plutônicas, ou seja, formadas pela cristalização do magma (rocha fundida) em grandes profundidades. Na mitologia romana, Plutão é o senhor do mundo inferior, do Inferno, daí a origem do nome desse tipo de rocha ígnea que se consolida nas profundezas da Terra. São rochas de composição granítica e se formaram há aproximadamente 485 milhões de anos. A origem dessas rochas está relacionada ao evento tectônico de conformação do Supercontinente Gondwana. Durante a colisão dos antigos continentes, primeiramente, os sedimentos que existiam nos mares que os separavam foram deformados pela pressão e temperatura reinantes, formando os paragnaisses. Com o aumento da deformação e acavalamento das massas continentais, as suas porções inferiores se fundiram, formando as rochas ígneas que, então, no estado líquido, intrudem e cortam as outras rochas existentes. Por este motivo as rochas mais velhas estão envolvendo as mais novas. Com o passar de milhões de anos, as forças internas da Terra e a erosão vão trazendo à superfície as rochas que estavam em profundidade. As que são mais resistentes se destacam na paisagem, enquanto as mais frágeis se desfazem com maior velocidade. Assim, há muita beleza cênica e científica na Pedra Lisa. Sua história pode ser contada de muitas maneiras: pela Geologia, Geomorfologia, História do Montanhismo e pelas pessoas que a visitam apenas para observar sua geoforma!

FAROL DE SÃO TOMÉ
Localização: 22º2’34.69” S; 41º45’21.79” O
Descrição: O Farol de São Tomé é uma vila pesqueira de onde foi perfurado o primeiro poço de petróleo na Bacia de Campos (parte emersa). Esta localidade guarda, ainda, os registros dos caminhos e meandros do rio Paraíba do Sul ao longo dos últimos 120 mil anos, na construção de sua planície que, também, representa o mais importante aquífero do Estado do Rio de Janeiro. A planície quaternária é a feição geológica-geomorfológica dominante do município, sendo composta por sedimentos formados durante o Holoceno. Os sedimentos são de origem deltaica e aluvionar. São ainda, ligadas ao processo de formação da planície de inundação e à deriva da foz do Paraíba, as transgressões e regressões marinhas, fatores de formação das lagunas e das restingas litorâneas (Martin et al. 1997). Uma série de feições da planície holocênica pode ser destacada, cuja origem está intimamente associada a ultima transgressão marinha, há cerca de 5.100 anos A.P. Dentre elas podem ser citadas a Lagoa Feia, Lagoa de Cima, Lagoa Salgada, e as praias da região. Os sedimentos da planície de inundação do rio Paraíba do Sul são usados como material para cerâmica estrutural, cuja origem histórica associa-se ao povoado de São Sebastião e hoje se constitui numa das mais fortes atividades econômicas do Município para fabricação de telhas, tijolos e artefatos cerâmicos.

CACHOEIRAS DO IMBÉ
Localização: 21º48’51.18” S; 41º45’21.79” O (Distrito de Morangaba)
Descrição: As cachoeiras do Imbé situam-se no reduto ecológico do Parque Estadual do Desengano, uma reserva de Mata Atlântica. Composta por granitóides orogênicos e pós-orogênicos do Ciclo Brasiliano, o Imbé é uma região com trilhas, córregos, rios e cachoeiras, tornando um lugar altamente propício ao contato com a natureza.

LAGOA SALGADA
Localização: 21°54’10’’S; 41°00’30″ O (Divisa dos Municípios de São João da Barra e Campos dos Goytacazes, na localidade Barra do Açu)
Descrição: Distante aproximadamente 25 km de Farol de São Thomé, a Lagoa Salgada faz parte do complexo deltaico do rio Paraíba do Sul. Esta lagoa ocupa uma área com cerca de 16 km2, estando situada em uma planície arenosa formada por cristas e praias (beach ridges) holocênicas, ao sul do rio Paraíba. A origem marinha destas areias é confirmada através da análise de foraminíferos, cujas formas encontradas evidenciam uma ligação aberta com o mar. A Lagoa Salgada é uma laguna hipersalina, que abriga ocorrências de estromatólitos carbonáticos colunares, domais, estratiformes, trombólitos e oncólitos da idade holocênica. A sua importância geológica e paleontológica pode ser comparada com as outras poucas ocorrências semelhantes como em Shark Bay (Austrália), Bahamas, Golfo Pérsico, Solar Lake (Israel), Salt Lake (EUA), Green Lake (EUA), Yellowstone National Park (EUA), Florida (EUA), Ilha de Hai-Nan (China) e Golfo do México, entre outros. (Martin et al. 1993). Um painel do projeto Caminhos Geológicos foi implantado na Lagoa Salgada cuja descrição consta do primeiro volume do SIGEP (Srivastava 2002).

MORRO DO ITAOCA
Localização: 21°47’52.8” S; 41°26’59.6” O
Descrição: O Morro do Itaoca é um dos locais mais procurados pelos amantes da natureza que moram ou visitam o município de Campos dos Goytacazes. O local é visitado para realização de voo livre, ioga, caminhada, corrida, ciclismo, trekking, dentre outros esportes, além de abrigar a maior pista de downhill do Brasil. Também é procurado por pesquisadores que buscam informações relacionadas ao patrimônio científico da biodiversidade e geodiversidade local. O morro representa o pico mais alto do município, atingindo altitude de 414 m, fornecendo uma visão panorâmica e belíssima da região, em particular da Lagoa de Cima, outro importante geossítio na área. Seu nome é herdado das populações originárias que habitaram a região e significa, em tupi-guarani, casa (oca) de pedra (ita). Desde 2013, o Morro do Itaoca se tornou uma Área de Proteção Ambiental (APA) Municipal, que é uma categoria de unidade de conservação de uso sustentável, visando à proteção e uso equilibrado dos recursos naturais. O local detém remanescentes florestais da Mata Atlântica, fauna associada e grande beleza cênica. É  uma excelente escolha para prática do ecoturismo e uma oportunidade para o geoturismo. Apesar de quase toda a serra estar contida em uma APA, em seu entorno imediato, fora, portanto, dos limites de proteção, existem algumas minerações que exploram as rochas do maciço. Esta deve ser uma preocupação de gestão, dada a possibilidade de danos ao monumento protegido. Além disso, pesquisas indicam que todo o maciço está recoberto por polígonos relativos à autorização para pesquisa mineral ou lavra junto à ANM (Agência Nacional de Mineração). A Geologia do Morro do Itaoca está relacionada ao estágio final da colisão continental que originou o Supercontinente Gondwana, onde África e América do Sul foram unidas numa única massa continental. As rochas do morro do Itaoca são caracterizadas por pertencerem a corpos ígneos plutônicos, ou seja, formados pela cristalização do magma (rocha fundida) em grandes profundidades. Essas rochas ígneas são representadas por granitos datados em cerca de 480 milhões de anos. Esta rocha granítica representa o evento magmático mais recente ocorrido durante a conformação do Gondwana. Esse supercontinente teve longa duração, com a força da colisão atuando desde 600 milhões, aproximadamente, até cerca de 480 milhões de anos. Somente há 130 milhões de anos ele se quebrou e continua a nossa separação da África até os dias de hoje. A colisão continental que formou o Supercontinente Gondwana teve várias etapas ao longo desses milhões de anos e, durante esse processo, houve condições de altíssimas pressões e temperaturas, que propiciaram a deformação das rochas e mudanças em seus minerais, produzindo as rochas metamórficas. No caso da rocha ígnea granítica, por sua formação se dar no final do esforço proporcionado pela colisão, quando não há mais a forte pressão dirigida de uma placa colidindo com a outra, o ambiente que predomina é o de alta temperatura, dada a grande profundidade em que se formam. Essa temperatura elevada gera fusão das rochas, resultando em um magma de composição granítica, que se cristaliza conforme vai esfriando. A composição das rochas de Itaoca é semelhante à da crosta continental. Portanto, os pesquisadores entendem que essa rocha é produto da fusão na base desses antigos continentes que colidiram. Fragmentos de rochas mais antigas, metamórficas, são encontrados dentro deste maciço, mostrando que ele, ao se cristalizar, pegou pedaços da rocha que já existia no entorno e incorporou ao seu domínio. Ao visitar este geossítio, além de apreciar um passeio com uma vista incrível, você poderá conhecer uma parte da importante história geológica que originou o território do nosso Geoparque!

Referências: Potratz, G.L.; Valeriano, C.M. 2017. Petrografia e Litogeoquímica do Granito Itaóca, Município de Campos dos Goytacazes, RJ: O Representante Mais Jovem do Magmatismo Pós-colisional da Faixa Ribeira. Geonomos, 25(1):1-13 | Morro do Itaoca também é um dos pontos turísticos neste verão


PRINCIPAIS SÍTIOS DE INTERESSE HISTÓRICO-CULTURAL NA ÁREA DO GEOPARQUE:

SOLAR DOS AYRIZES
Localização: 21º 45′ 45.93” S; 41º15’30.76” O (às margens da BR-356)
Descrição: Este solar construído no século XIX está localizado à margem direita do rio Paraíba do Sul. Em 29 de fevereiro de 1940, o então proprietário do Solar dos Ayrizes, o geólogo e memorialista Alberto Ribeiro Lamego escreveu ao diretor do IPHAN, Rodrigo Mello de Andrade, solicitando o tombamento do prédio, tendo o pedido sido prontamente acolhido. Trata-se de um edifício típico dos sobrados nas fazendas de Campos, destacando-se no período Imperial. No interior do solar já esteve presente à biblioteca, arquivo e a pinacoteca de Alberto Lamego, seu mais ilustre habitante. Belíssimo exemplar da arquitetura neoclássica rural campista, o prédio possui toda sua estrutura em peroba e pau-brasil. Segundo consta, ao gosto popular, nele residia a Escrava Isaura (Alves & Teixeira 2008).

SOLAR DO COLÉGIO
Localização: 21º 50′ 45.47” S; 41º16’16.40” O (às margens da Rodovia Sergio Viana Barroso)
Descrição: Este Solar foi construído na segunda metade do século XVII pelos jesuítas, que na época eram proprietários de uma das maiores fazendas da região, com a finalidade de ser um “colégio” tipicamente jesuíta. Quando expulsos do Brasil, o prédio foi vendido em hasta pública. O Solar do Colégio é tombado desde o ano de 1946, pelo IPHAN. Apresenta um estilo maciço dos antigos conventos, de paredes espessas e está instalado em suave elevação com relação aos arredores, protegido dos alagamentos na época de chuvas.

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