Geoparque Caçapava

O Projeto Caçapava Geoparque integra a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a Universidade Federal do Pampa (Unipampa), a Prefeitura Municipal de Caçapava do Sul e a Associação para o Desenvolvimento do Geoturismo em Caçapava do Sul (AGEOTUR) em uma estratégia de desenvolvimento local com base no geoturismo, na conservação da natureza e na educação ambiental e patrimonial de qualidade.

O território coincide com os limites administrativos do Município de Caçapava do Sul, de 3.000 km² e cerca de 35 mil habitantes. Os principais geossítios são as Pedras das Guaritas, as Minas do Camaquã e a Serra do Segredo, áreas formadas por rochas sedimentares de mais de 500 milhões de anos, desenhadas por processos geomorfológicos de grande interesse científico e que resultaram em fantástica beleza cênica.

O GEODIA, pioneiro no Brasil e realizado desde 2015, é o principal evento de educação patrimonial e integração com a comunidade local. A cultura gaúcha, a pecuária familiar, a importância do centro histórico da cidade e os esportes de aventura na natureza são alguns dos atrativos adicionais do território.

O Projeto Geoparque Costões e Lagunas do RJ realizou uma entrevista especial com a equipe do Geoparque!
Confira abaixo!

1) De que forma começou o Geoparque, quem participou e como está o projeto hoje?

Informalmente, o projeto de certificar um geoparque centrado em Caçapava do Sul começou a partir de uma série de iniciativas que foram se acumulando:

a) Inventário do patrimônio geológico realizado entre 2010 e 2012, e publicado em 2013;

b) Articulação política com a prefeitura municipal e com deputados estaduais, que culminou com a declaração oficial de Caçapava do Sul como “capital gaúcha da geodiversidade” (Lei Estadual 14.708, de 2015); e

c) Ideia da realização do GEODIA, um evento de integração entre a comunidade local e o conhecimento das geociências e do seu patrimônio natural, que começou em 2015 e segue ocorrendo anualmente, sempre em novembro.

Em 2018, o Projeto Caçapava Geoparque foi institucionalizado, passando a fazer parte da estratégia da UFSM e da Unipampa para o desenvolvimento local/regional, com a parceria da Prefeitura Municipal e de uma entidade criada especialmente para alavancar o geoturismo, a AGEOTUR. Hoje, o projeto está com carta de intenções submetida à UNESCO Paris e, em teoria, já pode ser considerado um “Geoparque Aspirante”.

2) Como é constituída a estrutura de gestão do Geoparque? Quais as categorias profissionais que fazem parte da equipe?

A estrutura de gestão está em construção, mas provavelmente será construída com base em convênios das universidades, poder público local e sociedade civil, no sentido de estabelecer um conselho gestor, com comitês de educação, turístico/ambiental e de geração de renda, e um conselho científico formado principalmente pelas universidades.

Hoje, nosso principal apoio vem da Pró-Reitoria de Extensão da UFSM, que tem um setor exclusivo para cuidar do projeto geoparque e, inclusive, disponibiliza um edital específico, com recursos garantidos para projetos vinculados à estratégia. A Unipampa sinalizou recentemente que irá fazer o mesmo.

Com essas iniciativas, diversas áreas do conhecimento já tiveram projetos contemplados: Geologia, Geografia, Educação Física, Arquitetura, Direito, Artes e Desenho Industrial, Comunicação, entre outras.

3) Quais as principais ações de geocomunicação e geoeducação que vocês promovem no território?

A popularização das Geociências e a socialização do conhecimento sobre o patrimônio natural e paisagístico local são muito importantes no Projeto Caçapava Geoparque. Além do GEODIA, que já teve cinco edições desde 2015, algumas importantes iniciativas se somaram a ele:

a) Implantação de painéis interpretativos em geossítios. Nas três principais praças da cidade foram colocados por um projeto de pesquisa em geoturismo liderado pela Unipampa, mas seu conteúdo será aproveitado pelo projeto que, inclusive, deverá se responsabilizar por futuras substituições e reposições desses painéis, com uma nova identidade visual;

b) Houve também a construção de um exclusivo equipamento educativo e turístico no acesso à Unipampa, o “Jardim da Geodiversidade Professor Maurício Ribeiro”, com grandes blocos de rocha, que pode ser visitado pelas escolas, famílias caçapavanas e que é usufruído pelos estudantes no dia-a-dia;

c) Saindo um pouco da comunidade escolar, podemos citar uma série de qualificações e aperfeiçoamentos que vinham sendo feitos antes da pandemia, sobre geleias e outros produtos culinários, e, principalmente, com as artesãs de Caçapava do Sul, que estão confeccionando produtos belíssimos, inspirados na Geodiversidade e na paisagem local.

4) Quais são os geossítios e sítios culturais de maior relevância para o Geoparque?

Podemos citar três geossítios muito importantes, todos de nível internacional. A área conhecida como “Pedras das Guaritas”, a mais de 40 km da zona urbana, é um planalto muito dissecado, do qual restou uma série de elevações de aspecto ruiniforme e onde estão expostas rochas sedimentares continentais, fluviais e eólicas, do Cambriano-Ordoviciano (500 milhões de anos). Nessa área, além do aspecto geológico, estrutural e geomorfológico, há um aspecto cultural importante: os pecuaristas familiares, um tipo de ocupação muito tradicional na metade sul do Rio Grande do Sul, que criam gado bovino, ovelhas e cabras, e cuja subsistência é garantida exatamente por essa atividade.

Outro geossítio importante, que integra os patrimônios geológico e mineiro, é a área chamada “Minas do Camaquã”, onde estão marcadas diversas fases de exploração de cobre, ouro e outros metais sulfetados, representando uma atividade que durou mais de 100 anos e que deixou um legado cultural muito importante.

Bem mais próximo da cidade está o geossítio “Serra do Segredo”, que é uma linda cuesta, também bastante dissecada, formada sobre conglomerados e arenitos conglomeráticos do Ediacarano (em torno de 550 milhões de anos), onde há um enorme potencial para esportes de aventura, principalmente escalada em rocha, em conglomerados, no caso, que é uma escalada diferente.

Por fim, como sítios culturais, há um grande destaque para o “Forte Dom Pedro II”, uma fortificação do século XIX, e cujas muralhas são construídas com blocos graníticos dali mesmo, da zona urbana, que é um alto topográfico. Esse forte, que é a única construção preservada deste tipo no Rio Grande do Sul, está inserido em um centro histórico maravilhoso, ainda com algumas casas de estilo colonial luso-brasileiro, mas com muita influência já do ecletismo e, sobretudo, do Art Déco.

5) Qual é o maior desafio que vocês enfrentaram na divulgação e engajamento do projeto?

Um dos problemas foi um mal-entendido que aconteceu no passado. Na mesma época de progressiva consolidação do projeto, havia uma empresa que estava tentando estabelecer uma mineração de chumbo e zinco no município. Algumas pessoas, principalmente no meio rural, entre os proprietários de fazendas em Caçapava e em Bagé, pensaram que os dois projetos estavam vinculados, ou que de alguma maneira o Projeto Caçapava Geoparque pudesse estar estimulando a mineração, que era considerada uma grande ameaça à qualidade ambiental da área das Guaritas, principalmente.

Foram realizadas algumas reuniões e conversas no sentido de explicar que a filosofia de um Geoparque Mundial da UNESCO é exatamente oferecer uma nova alternativa de desenvolvimento, com base na conservação ambiental, na educação e no turismo. Às vezes, surgem ainda alguns problemas, mas de maneira geral conseguimos que aquela comunidade entendesse as nossas intenções.

6) Quais são os planos para o futuro do Geoparque Caçapava?

Aprofundar as relações com a comunidade, em primeiro lugar. A institucionalização do projeto nas universidades foi um passo importante para tornar o projeto mais permanente, mais concreto, menos pessoal, inegavelmente tem uma legitimidade muito maior vindo de duas universidades federais (UFSM e Unipampa). Porém, precisamos consolidar e ampliar o apoio da comunidade para com o projeto.

Um dos nossos grandes planos para o futuro, que necessita de um significativo respaldo da população local, é a construção e implantação de um centro interpretativo e de visitantes. Já temos o pré-projeto (que os arquitetos chamam de “partido arquitetônico”) que será a revitalização de um terreno central na cidade, numa das esquinas mais importantes da história do Rio Grande do Sul e que hoje está em ruínas, muito degradado.

Estamos tentando obter a posse do terreno e, ao mesmo tempo, recursos para a construção. Será um equipamento inovador para o contexto do Rio Grande do Sul e temos certeza de que usará muita tecnologia, justamente para despertar sensações inesquecíveis nos visitantes ao apresentar nossa paisagem e patrimônio.

7) Gostaria de ressaltar alguma característica que faz do seu projeto especial?

Na verdade, tudo em Caçapava do Sul é especial e por isso é difícil definir algum aspecto que se destaque. Um deles talvez seja a própria Geodiversidade, a quantidade de rochas, estruturas, materiais e formas diferentes, que acaba se refletindo na diversidade de ecossistemas, de paisagens, de possibilidades e na própria beleza cênica.

Nada em Caçapava é monótono, as formas são lindas, as cores são deslumbrantes e a visibilidade é incrível. Destaca-se, também, a autenticidade do povo gaúcho que vive ali, principalmente na área das Pedras das Guaritas. Não é um gaúcho inventado, pasteurizado; é o gaúcho original, pampeano, cuja atividade transforma o ambiente de forma suave, sustentável (muito antes de se inventar a tal sustentabilidade), mantendo e respeitando todos os processos naturais ao conviver e aprender com eles.

8) Defina o Geoparque Caçapava em apenas uma palavra e por quê?

Por enquanto é trabalho. A gente sente que já trabalhou muito, mas que ainda tem muito que fazer no território. Mesmo tendo enviado a carta de intenções, sabemos que o caminho é longo e que em alguns aspectos as iniciativas estão só começando. A única certeza é que temos muito trabalho pela frente!

Entretanto gostaríamos, no futuro, que a palavra viesse a ser qualidade: qualidade dos espaços de educação e turismo, qualidade dos equipamentos (museus, centros de interpretação, miradores), qualidade nas relações com a comunidade, qualidade no conteúdo e na forma dos materiais a serem disponibilizados a visitantes, a estudantes, à cidadania local. Para o nosso geoparque seria uma característica essencial.

Galeria de Fotos:

Mapa artístico do município de Caçapava do Sul.

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