Iguaba Grande

Geologia: Abrange parte da Serra da Sapiatiba formada por rochas metamórficas originadas de sedimentos marinhos. Elas se formaram há cerca de 500 milhões de anos em contraste com as rochas metamórficas de origem magmática existente no entorno, cuja idade é de 2 bilhões de anos. Falhas geológicas, como a existente na Ponta da Farinha, e diques de diabásio remetem a um passado com terremotos e vulcanismo.

Histórico: “Iguaba” é um termo de origem tupi que significa “lugar de beber água, bebedouro”, através da junção dos termos ‘y (água), ‘u (ingerir) e aba (lugar). Iguaba é um lugar tranquilo, de um povo pacato, cercado por águas e recheado de histórias fantásticas. Apesar de jovem, a história de Iguaba Grande é extensa e nos remete à ocupação do litoral pelos povos indígenas. Do ponto de vista da presença dos europeus, destacamos o ano de 1761, quando a Capela de Nossa Senhora da Conceição foi construída pelo padre jesuíta Francisco Borges com ajuda dos índios. A capela, em estilo colonial, conta a história da ocupação da região, sendo tombada como patrimônio cultural em 1979. Em 1915, o trem movido à lenha, e posteriormente a carvão, transportava malote dos Correios, abastecia o comércio local e também levava passageiros entre Niterói e Cabo Frio. A ferrovia foi desativada definitivamente na década de 1960. Em 1921, Francisco da Silveira Melo fundou a primeira caeira da cidade. A cal produzida pela máquina era utilizada na construção de casas do povoado. A moagem de conchas, provenientes da Lagoa de Araruama, chegou logo em seguida e a farinha de ostra era enviada para a Capital Fluminense, servindo para alimentar aves e fazer remédios. O município, banhado pela lagoa, tinha como principal atividade a extração e exportação do sal na década de 1940. A posição geográfica permitia que os moradores também vivessem do pescado de peixes e camarões. Com cerca de 500 habitantes até meados de 1940, o distrito de Iguaba Grande, que pertencia à cidade de São Pedro da Aldeia, não possuía iluminação pública. O sistema foi implantado utilizando óleo diesel e a manutenção do gerador era feita por um funcionário que ligava o motor manualmente. O armazenamento de água potável era feito através de cisternas domésticas e o abastecimento encanado só chegou na década de 1970, após a fusão do Estado da Guanabara com o Rio de Janeiro. Com o desenvolvimento e crescimento da cidade ao longo dos anos, Iguaba Grande se emancipou de São Pedro da Aldeia em 08/06/1995, quando cerca de 94% dos eleitores foram favoráveis à independência do município.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

SERRA DA SAPIATIBA E SAPIATIBA MIRIM
Localização: 22°50’45.47″ S; 42°11’59.71″ O (O acesso se faz pela Rodovia Amaral Peixoto entre Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, na altura da Ponta da Farinha)
Descrição: Foi implantado neste local um painel do Projeto Caminhos Geológicos. As rochas da Serra de Sapiatiba e Sapiatiba Mirim são paraderivadas e sua origem está no metamorfismo de sedimentos marinhos lamosos acumulados no mar existente antes da amalgamação do Gondwana. Esta bacia sedimentar oceânica certamente durou até 600 milhões de anos atrás. Foi denominada de Bacia Búzios-Palmital e compreende as rochas da região de Búzios e das serras da Sapiatiba, Mato Grosso e Palmital.

UM SOLO QUE FEZ HISTÓRIA – PONTO PRJ-19
Localização: 22°49’38.06″ S; 42°13’24.37″ O
Descrição: Muitas vezes não nos damos conta da importância dos solos para nossas vidas. É sobre ele que vivemos, sendo o substrato da agricultura que nos alimenta e dos biomas terrestres. Existe muita vida no interior do solo que, ainda, retém água para as plantas e para abastecer os aquíferos. É comum ouvirmos a comparação: “solo é a pele da Terra”. Solos se formam a partir da alteração das rochas, o intemperismo. Esse processo é resultado do desequilíbrio físico ou químico gerado quando uma rocha, na superfície da Terra, fica exposta a condições diferentes daquelas em que se formou. Um exemplo de desequilíbrio químico pode ser dado pela formação da famosa “Terra Roxa” da Bacia do Paraná. Esse solo é formado pela alteração do basalto, rocha vulcânica que se cristaliza em temperatura superior a 1.000°C e que, quando alcança a superfície, altera-se, em especial pela ação da água, gerando este rico solo para a agricultura. Quando os minerais da rocha entram em contato com a água, considerada um solvente universal, reações químicas podem modificá-los. A água pode dissolver e carregar elementos químicos dos minerais, num processo muito semelhante ao que ocorre quando coamos café. Ela também pode hidratar os minerais com os quais esteve em contato. Gelo, degelo e raízes de plantas podem quebrar a rocha em pedaços bem pequenos. O ácido húmico das plantas também pode causar alteração nos minerais. Rochas diferentes geram solos diferentes. Climas úmido ou seco, desértico ou gelado também produzem solos diferenciados porque os processos químicos, físicos e biológicos envolvidos geram produtos variados. Outros fatores importantes são declividade do terreno, organismos presentes e tempo de atuação do intemperismo. O solo de Iguaba Grande é tão especial por ser um patrimônio da ciência de solos no Brasil. Pedologia é a ciência que estuda os solos. Em 1978, o ponto PRJ-19, localizado próximo à saída da Via Lagos em Iguaba Grande, foi descrito durante a Primeira Reunião de Classificação, Correlação e Interpretação de Aptidão Agrícola de Solos (I RCC). Essa reunião pioneira foi seguida de um trabalho de campo que descreveu e deu origem ao Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Portanto, este solo é um padrão brasileiro para um tipo de solo que recebe o nome de Planossolo Háplico. Do topo para a base, podemos observar no perfil de solo letras que representam os seus diferentes horizontes, facilmente reconhecidos por suas cores variadas: A – Horizonte composto por matéria orgânica (húmus) e inorgânica (proveniente do intemperismo dos minerais das rochas); E – Horizonte de cores claras, de onde finos minerais e elementos químicos foram carregados pelas águas que se infiltram; B – Horizonte onde se acumula material proveniente dos horizontes superiores; C – Horizonte constituído por material rochoso já bastante alterado, mas que ainda mantém feições da rocha original. Compare com um clássico e completo perfil de solo e verá que este é um local muito didático para práticas de aulas. Nosso projeto de Geoparque possui outros 6 tipos de solos em sítios de importância para a pedologia brasileira, porque foram descritos na mesma RCC. Temos um rico patrimônio pedológico para conservar e divulgar. Neste local foi implantado um painel do Projeto Caminhos Geológicos que, no entanto, foi retirado por desconhecidos.

LAGOA DE ARARUAMA
Localização: 22°54’40.4” S; 42°21’29.2” O
Descrição: A Lagoa de Araruama é um geossítio de extrema relevância no nosso território, não só por ser a maior sistema lagunar hipersalino em estado permanente da Terra (cerca de 220 km²) como pela raridade do ecossistema em que ocorre. Banha os municípios de Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Arraial do Cabo. A existência da Lagoa representa uma parte relativamente recente da história da Terra, correspondente aos registros de avanços e recuos do nível relativo do mar nos últimos 120 mil anos, ou seja, compreende o final do período Quaternário (pequena parte do Pleistoceno e todo o Holoceno, que é o nome da época em que vivemos). As variações no nível do mar muitas vezes representam mudanças climáticas cíclicas em nosso planeta, causadas por períodos de glaciação entremeados com momentos mais quentes, os interglaciais. Essas mudanças foram fundamentais para a deposição dos sedimentos na Restinga da Massambaba e para a existência deste sistema lagunar tão especial. Pela observação da imagem de satélite é possível perceber que a Lagoa de Araruama está separada do mar por um grande cordão arenoso, onde estão instaladas pequenas lagunas, como as Lagoas Vermelha, Pitanguinha, Pernambuca, Brejo do Espinho, entre outras. Estudos e datações revelaram que este cordão é composto por dois cordões de idades bem distintas, sendo que o mais velho não ocorre em toda a extensão da Massambaba e está mais próximo à Lagoa de Araruama (chamado de barreira interna). Ele foi associado à elevação do nível do mar que ocorreu há cerca de 120 mil anos, formando uma enseada onde hoje está a Lagoa de Araruama. Mas, no final do Pleistoceno, houve um período glacial bastante intenso, que fez recuar o nível do mar por conta do congelamento de água nos polos e continentes. Este recuo fez com que sedimentos se depositassem e houvesse a formação desse cordão mais velho e interno, cuja formação também foi facilitada pelo transporte de sedimentos pelas correntes marinhas. Posteriormente, entre 7 e 5 mil anos A.P (antes do Presente), houve uma nova elevação do nível do mar. A que ocorreu há 5 mil anos é considerada a maior do Holoceno e alcançou cerca de 3 m acima do nível atual. O mar novamente invadiu a Lagoa de Araruama, destruindo parte da barreira interna. No recuo do nível relativo do mar, que ocorreu após este momento, houve a formação por sedimentação da barreira externa que, assim, deixou seu registro nas pequenas lagunas existentes no interior do cordão. Sua hipersalinidade peculiar está associada ao fenômeno da ressurgência. Esse fenômeno é causado pela Corrente das Malvinas, de águas frias, que migram pelo fundo do oceano até que alcança a Ilha do Cabo Frio, ou Ilha do Farol, em Arraial do Cabo. Com os ventos de direção NE, as águas quentes nas partes mais rasas do oceano são empurradas e essa água fria sobe à superfície. Isto desfavorece a evaporação e, consequentemente, a formação de nuvens de chuva. Além disso, os ventos também dispersam as nuvens que não encontram barreiras de montanhas para provocar a precipitação na região. Esse conjunto de fatores gera um clima semiárido. Assim, são raros os rios e córregos para abastecer a Lagoa de Araruama e todo o sistema com água doce. A insolação e os ventos fortes favorecem a evaporação da água da lagoa, tornando-a hipersaturada em sais. Esta peculiaridade é responsável pela existência histórica das salinas na região, que emprestam beleza à paisagem com seus cata-ventos. Além disso, propicia as condições para formação de estromatólitos.

Referências: Prado, T.P.M. 2016. Caracterização de Fácies e Interpretação Paleoambiental em um Testemunho de Sondagem na Lagoa Vermelha, Planície Costeira de Araruama (Região dos Lagos), RJ. Trabalho de conclusão de curso (graduação), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Departamento de Geologia 53p. | Mansur, K.L. 2010. Diretrizes para Geoconservação do Patrimônio Geológico do Estado do Rio de Janeiro: o caso do Domínio Tectônico Cabo Frio [Rio de Janeiro]. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Programa de Pós-Graduação em Geologia, 214p. | Gênese da Morfologia do Fundo da Lagoa de Araruama e Cordões Litorâneos Associados | Estudo Preliminar da Climatologia da Ressurgência na Região de Arraial do Cabo, RJ

PONTA DA FARINHA
Localização: 22°51’18.6” S; 42°11’45.1” O
Descrição: A Ponta da Farinha é um geossítio que está localizado na Praia Linda, às margens da Lagoa de Araruama, à 5 km do centro do Município de Iguaba Grande, e possui uma beleza exuberante além de seu alto valor geológico e potencial geoturístico. O acesso à Ponta da Farinha se dá pelo Núcleo Experimental de Iguaba Grande (NEIG), pertencente à Faculdade de Veterinária da UFF (Universidade Federal Fluminense). Fundado em 1960, a área foi doada pelo presidente Juscelino Kubitschek para funcionar como uma granja-escola com objetivo de realizar aulas práticas para os alunos do curso de veterinária da universidade. Por vários anos funcionou também como uma salina-escola. Caminhando pela faixa de areia da Ponta da Farinha, é possível observar diferentes tipos de rochas, como os gnaisses e as brechas tectônicas, além de registros de eventos de variação no nível relativo do mar, cada um com uma idade bastante específica. Gnaisses são rochas metamórficas. Eles foram formados em um antigo continente que existiu na África há cerca de 2 bilhões de anos, mas se juntaram ao nosso território sul-americano em 520 milhões de anos, quando houve a colisão continental que deu origem ao Supercontinente Gondwana. As brechas tectônicas são provenientes de movimentação de falhas geológicas. Estas se desenvolvem quando a rocha é submetida a esforços que geram um plano de fraqueza, que se rompe e se movimenta. Terremotos, por exemplo, são decorrências destas movimentações. Esse tipo de brecha se caracteriza pela existência de fragmentos angulosos, envoltos e unidos por um material mais fino. Os esforços que geram a falha podem quebrar a rocha em diversos pedaços. Material da própria rocha, em geral a sílica (óxido de silício), escapa da rocha durante este movimento na forma de fluidos e preenche os espaços entre os fragmentos. Assim se formam as brechas tectônicas. Importante destacar que os terremotos que geram as brechas são rasos, porque a rocha deve estar fria para se quebrar em pedaços. É possível, a partir de uma imagem de satélite identificar o traçado da falha da Ponta da Farinha. Além dessas rochas, também encontramos no local evidências de eventos mais recentes na história geológica. Observam-se, presos às fendas dos costões rochosos, tubos de vermetídeos – grupo de gastrópodes que vivem colados às rochas na região do limite superior da linha d’água. É possível datar esses organismos e, assim, junto com outros indicadores, reconstituir o nível relativo do mar no passado. Vale mencionar que os vermetídeos observados na Ponta da Farinha encontram-se acima do nível atual, porém ainda não foram datados. Destaca-se que este é um dos últimos locais na parte mais interna da Lagoa de Araruama onde se pode observar uma vegetação ainda preservada. Visitando a Ponta da Farinha, você pode fazer um passeio tranquilo apreciando a beleza única do local, enquanto observa os registros de diferentes momentos da história geológica, evidenciados a partir das várias rochas que ali mantém viva a memória da Terra!

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