Macaé

Geologia: Com a separação da América do Sul e África, iniciou-se o processo de formação de fundo oceânico que gerou espaço para a deposição dos sedimentos da Bacia de Campos. As rochas do continente possuem cerca de 2 bilhões de anos, enquanto a abertura do Oceano Atlântico ocorreu há 130 milhões de anos.

Histórico: Descobertas de sambaquis na Praia de Imbetiba, em Macaé, comprovam que a região já era povoada por indígenas há milhares de anos. Quando os primeiros colonos de origem europeia chegaram ao local, no século XVI, encontraram duas tribos rivais: os Tamoios e os Goitacás. As terras do atual município faziam parte da Capitania de São Tomé, indo do Rio Itabapoana ao Rio Macaé e foi batizada de “Macahé”. Seu povoamento de origem europeia iniciou-se em 1614, quando Portugal se encontrava sob o domínio da Espanha. Para evitar invasões de inimigos, criou-se uma aldeia de índios catequizados. Os primeiros registros dos jesuítas em Macaé datam de 1634. No princípio, foi fundada, à margem do rio Macaé e próxima ao Morro de Sant’Ana, uma fazenda agropecuária, que, no correr dos anos, ficou conhecida como “Fazenda de Macahé”. Na base do morro, entre este e o rio, levantou-se um engenho de açúcar com todas as dependências e lavouras necessárias. Além do açúcar, produziam farinha de mandioca em quantidade e extraíam madeira para construções navais e edificações. No alto do morro foram construídos um colégio, uma capela e um pequeno cemitério, o qual guarda, até hoje, os restos mortais de alguns jesuítas. Em 1759, a fazenda foi incorporada aos bens da coroa portuguesa pelo desembargador João Cardoso de Menezes. Nesta ocasião, os jesuítas foram expulsos do Brasil, imposição feita pelo Marquês de Pombal. Em 29/07/1813, a Vila de Macaé foi elevada à condição de município. Como as produções açucareira e cafeeira se expandiram muito e o Porto de São João da Barra não estava mais dando conta do movimento, iniciou-se, então, em 1844, a construção do Canal Campos-Macaé, com 109 km. Em abril de 1832, o famoso naturalista inglês Charles Darwin realizou uma expedição a cavalo desde o Rio de Janeiro até a região de Macaé. Após sair da fazenda Campos Novos, passou por Barra de São João (Distrito de Casimiro de Abreu) e pernoitou próximo ao rio Macaé, num estabelecimento chamado “Venda do Mato”. Como não estava se sentindo bem, ele registrou em seu diário de campo que se preocupava em passar mal num lugar estranho e sem falar português. Escreveu sobre o barulho incessante e forte do mar. No dia seguinte, foi para a “Fazenda do Socego”, de propriedade de Manoel Figueiredo, cuja filha era casada com um escocês chamado Lawrie, que o acompanhou na viagem desde o Rio. Nesta fazenda, que naquele momento pertencia ao município de Macaé e hoje faz parte de Conceição de Macabu, Darwin coletou insetos e répteis que foram catalogados e incorporados a sua famosa coleção e que serviram de base para sua mais notável publicação, “A Origem das Espécies” (On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life) publicada em 1859. A partir de 1974, com a descoberta de petróleo na Bacia de Campos, o município, que permanecia rural, começou a sofrer profundas mudanças em sua economia e cultura, a fim de atender a crescente demanda desta cidade por mão de obra especializada.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

ARQUIPÉLAGO DE SANTANA
Localização: 22°24’6.35″ S; 41°41’42.1″ O
Descrição: Formado pelas ilhas de Santana, do Francês, Ponta das Cavalas e Ilhote do Sul, além de rochedos e lajes, o Arquipélago de Santana fica a cerca de 8 km de distância da costa na direção da cidade de Macaé. É um Parque Municipal e Área de Preservação Ambiental (APA), que representa um geossítio com alto valor científico, ambiental e histórico. A Marinha do Brasil construiu uma base na Ilha de Santana que possui uma lagoa de água doce no seu interior. O arquipélago é considerado, também, um santuário ecológico. A cobertura vegetal das ilhas faz parte do Bioma Mata Atlântica, variando desde a praia, mata fechada e vegetação sobre rochas. Em relação à fauna, estudos no local demonstram que o arquipélago abriga importante avifauna (77 espécies: sete marinhas, 10 aquáticas e 60 terrestres, algumas migratórias), além de mamíferos, répteis, anfíbios e invertebrados. Segundo historiadores, no século XVIII, a ilha foi abrigo de embarcações, além de servir como base para operações de pirataria e o comércio fraudulento de Pau-Brasil. Assim, o arquipélago possui importância ambiental e histórica. Mas, também, possui relevância científica porque registra o limite norte do denominado DTCF (Domínio Tectônico Cabo Frio), que é um compartimento geológico fundamental para o entendimento do fechamento e abertura do supercontinente Gondwana, uma vez que é interpretado como um pedaço do continente africano que aqui permaneceu por um capricho da natureza. Entender cientificamente esse “capricho” tem sido uma das tarefas sobre a qual se debruçam geólogos que estudam a região. Predominam no arquipélago rochas metamórficas (gnaisse e anfibolito), com 2 bilhões de anos, dobradas e cortadas por diques de pegmatito (rocha plutônica) e diabásio (rocha subvulcânica com cerca de 130 milhões de anos). As rochas mais velhas sofreram deformação pela colisão das massas continentais dos antigos continentes sul-americano e africano, formando o Gondwana há cerca 500 milhões de anos. Já o pegmatito e diabásio representam rochas formadas durante o vulcanismo que levou à quebra desse paleocontinente e o início da formação do assoalho do Oceano Atlântico. Na ilha do Francês, muito visitada por turistas para banhos de mar em sua linda praia, foi observado um processo erosivo na forma de constantes movimentos de massa. Estudo demonstrou que são causados pela existência de uma antiga falha geológica (plano onde dois blocos rochosos se movimentam) formando uma zona de fraqueza por onde a água da chuva penetra e permite uma alteração mais intensa das rochas. Assim, o processo de formação da praia foi identificado como sendo provocado pelo recuo da encosta por movimentos de massa sucessivos no tempo. Analisando imagens de satélite da Ilha do Francês, pode-se concluir que este processo seguirá até que a ilha seja dividida em duas partes, uma vez que se observa processo erosivo semelhante na outra vertente da ilha, seguindo a direção da mesma falha. Brechas tectônicas silicificadas também são encontradas. Apesar de regulamentada a visitação, observa-se pichação nas rochas e lixo na areia. Concluímos que uma nova paisagem está se formando e isto nos conduz a uma reflexão sobre a conservação de geossítios.

Referências: Silva, I.H. 2007. Geologia do Arquipélago de Santana, Macaé (RJ). Monografia de Conclusão de Curso de Geologia. UFRuralRJ, 45p.

VILA DE SANA E SUAS CACHOEIRAS
Localização: 22°23’33.56″ S;  42°10’2.19″ O
Descrição: Área com intensa visitação turística por suas cachoeiras e caminhadas. Possui grande beleza cênica e toda a área é dominada pelo Peito de Pombo, montanha cuja silhueta é semelhante à desta ave. A área é dominada pela presença de granitos pós-orogênicos, encaixados em paragnaisses do Terreno Oriental.

LAGOA DE IMBOASSICA
Localização: 22º25’0.38” S; 41º49’6.5” O
Descrição: Esta lagoa costeira também foi visitada por Darwin, que ali coletou peixe para compor a coleção que enviava periodicamente à Inglaterra. Neste local existe um painel do Projeto Caminhos Geológicos. Os depósitos sedimentares desta área registram os últimos 20 mil anos, mostrando as variações do nível relativo do mar e seu registro na forma de uma antiga barra e de paleofalésias. A dinâmica costeira interpretada nos últimos 3 mil anos mostra que era comum a combinação entre uma cheia fluvial e uma maré anormalmente mais baixa. Com isto a lagoa transbordava naturalmente, rompendo a barra e escoando seu excesso de água e de vida para o mar, cumprindo assim sua função de berçário de peixes e crustáceos. Numa frequência bem menor, a barra podia ser rompida por ondas de ressaca. Ela, assim como outras lagoas da região, foi uma das principais fontes de alimentação de povos indígenas.

PARQUE NACIONAL DA RESTINGA DE JURUBATIBA
Localização: 22º12’5” S; 41º29’33” O
Descrição: É o primeiro Parque Nacional brasileiro, criado em abril de 1998, a compreender exclusivamente o ecossistema de restinga e lagoas litorâneas. Pesquisadores concordam que Jurubatiba é a área de restinga mais bem preservada do país. Abrange parte das planícies fluviais e marinha dos municípios de Quissamã, Carapebus e Macaé. Compreende uma faixa de orla marítima com 14.860ha de área e 44 quilômetros de extensão de praias. É um importante território inserido na Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Registra espécies endêmicas e protege um rico ecossistema. Lagunas marcam as variações do nível do mar no Holoceno. O PARNA Jurubatiba é cortado pelo Canal Campos-Macaé que é considerado o segundo maior canal artificial do planeta e a maior obra de engenharia do período imperial no Brasil. Possui aproximadamente 100 km de extensão. Foram necessários quase trinta anos para a sua completa realização, que iniciada no ano de 1844 foi concluída em 1872. A construção de um canal navegável que serviria para o escoamento de mercadorias e transporte de passageiros entre Campos e Macaé, surgiu no final do século XVIII, frente ao crescimento da produção açucareira e as dificuldades de escoamento do produto. Dois anos apenas de sua conclusão foi inaugurada a estrada de ferro que ligava estas duas cidades, perdendo o Canal toda sua importância e funcionalidade. Tombado como patrimônio estadual em 2002, o Canal Campos-Macaé sofre hoje um intenso processo de assoreamento e despejos de esgotos, permanecendo apesar disso como um componente de destaque na paisagem urbana. Porém, no interior do parque ele mantém sua exuberância. Devido à importância do PARNA Jurubatiba, tornou-se tema da 5ª edição da nossa série Geossítios.


PRINCIPAIS SÍTIOS DE INTERESSE HISTÓRICO-CULTURAL:

CAMINHOS DE DARWIN
Localização: 22º22’28.07” S; 41º46’36.53”O
Descrição: Darwin passou por Macaé por duas vezes. Na primeira, dormiu do dia 11 para 12 de abril, conforme descrito a seguir: “Dormimos na Venda do Mato, duas milhas ao sul da foz do rio Macaé. Senti-me indisposto a noite toda. Não foi preciso muita imaginação para figurar os horrores de adoecer em um país estrangeiro, incapaz de pronunciar uma só palavra e de obter ajuda médica.” Novamente, no dia 19 de abril, retornando para o Rio de Janeiro, e registrou: “Deixamos Sossego, cruzamos o rio Macaé e dormimos na Venda de Mato. À noite, caminhei pela praia e desfrutei da vista de uma arrebentação alta e violenta”. Um painel do projeto Caminhos de Darwin foi implantado perto da foz do rio Macaé.

PAINEL DOS CAMINHOS GEOLÓGICOS SOBRE A BACIA DE CAMPOS
Localização: 22º24’12.83” S; 41º47’39.53” O
Descrição: Na praia dos Cavaleiros foi implantado um painel que descreve a origem geológica do petróleo na Bacia de Campos, a maior produtora de petróleo no Brasil. A Bacia de Campos inicia sua evolução a partir da instalação do processo que separou a América do Sul da África e criou o Oceano Atlântico, iniciado há aproximadamente 130 milhões de anos. Posteriormente formaram-se depressões que foram preenchidas inicialmente por lagos de água doce. Por volta de 115 milhões de anos atrás, o ambiente desses lagos, já em condições salobras, se tornou favorável a um intenso desenvolvimento de algas. Conchas se multiplicavam às suas margens. A abundante acumulação de restos vegetais no fundo do lago deu origem à rocha rica em matéria orgânica, que gerou o petróleo. O mar invade a depressão entre África e Brasil por volta de 112 milhões de anos, formando um longo golfo que se estendia desde Santa Catarina até Alagoas. O clima árido com evaporação intensa tornava estas águas uma verdadeira salmoura, depositando espessas camadas de sal. Com o peso dos sedimentos o sal deformou-se, produzindo as armadilhas que aprisionaram o petróleo em alguns dos atuais campos produtores. Em torno de 105 milhões de anos, houve uma invasão mais efetiva da água do mar sobre o continente. Desenvolveram-se extensos bancos de areias carbonáticas em um mar raso, de águas límpidas e mornas. Essas areias deram origem aos calcarenitos, que são as rochas reservatórios de óleo nos campos de Pampo e Garoupa, dentre outros descobertos pela PETROBRAS. Com o afastamento entre Brasil e África, a bacia sedimentar se torna cada vez mais profunda. Por volta de 90 milhões de anos, o fundo do jovem Oceano Atlântico passou a receber violentas descargas de sedimentos trazidos nas grandes enchentes dos rios, produzindo correntes turbulentas que escavaram cânions e despejaram extensos depósitos arenosos turbidíticos em águas profundas. Esses turbiditos são as rochas produtoras de óleo nos campos gigantes de Marlim, Albacora e Roncador.

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