Rio das Ostras

Geologia: As rochas mais antigas são datadas de cerca de 2 bilhões de anos, apesar de também haver outras rochas mais novas. Há aproximadamente 63 milhões de anos, a região foi palco de intensa atividade magmática que deu origem a várias rochas ígneas. Uma característica marcante é a coloração escura das areias das praias do município, que refletem a presença de minerais pesados como magnetita, rutilo e monazita.

Histórico: A origem de Rio das Ostras data de cerca de 4 mil anos, quando era habitada por caçadores e coletores seminômades, cuja presença pode ser comprovada em seu solo repleto de sambaquis, com áreas de sítios arqueológicos demarcadas em 1967 por pesquisadores do IAB (Instituto de Arqueologia Brasileira). Situada na Capitania de São Vicente, tinha a denominação de Leripe (que em tupi-guarani significa “Lugar de Ostra”) ou Seripe, sendo parte das terras da Sesmaria doada aos jesuítas pelo Capitão-Mor Governador Martins Corrêa de Sá, em 20/11/1630. Esta faixa foi delimitada por dois marcos de pedra – PITOMBAS – colocados em Itapebussus e na barreta do Rio Leripe com a insígnia da Companhia de Jesus. Os Jesuítas foram responsáveis pelas primeiras construções na região como o Poço de Pedras do Largo de Nossa Senhora da Conceição e a antiga Igreja. Conhecida então como Baía Formosa no século XIX, foi um próspero arraial e seu crescimento se deu ao redor da igreja e do Poço de Pedras. O Rio das Ostras era rota de tropeiros e comerciantes, mas no arraial já existiam internatos masculino e feminino, o Grande Hotel, o Posto de Polícia Provincial, a Igreja e o Poço do Largo, com água pura que jorrava a beira-mar. A história de Rio das Ostras é comprovada por meio de relatos de antigos navegadores que por lá passaram, como o sapateiro da expedição de Villegagnon França-Antártica em 1510, Jean de Lery, o naturalista Augustin François César Prouvençal de Saint Hilaire, o Príncipe alemão Maximilian Alexander Philipp Zu Wied Neuwied e, em 1847, o Imperador D. Pedro II, que descansou a sombra da, hoje, centenária figueira a beira-mar. Em 10/04/1992, a lei estadual nº 1984/92 criou o município de Rio das Ostras, com sede na atual Vila do mesmo nome, formado do território do distrito de Rio das Ostras, desmembrado do município de Casimiro de Abreu.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

MONUMENTO NATURAL DOS COSTÕES ROCHOSOS
Localização: 22º31’43.55” S; 41º55’25.38” O
Descrição: A área é acessada pelo costão ao lado da Praça da Baleia, na Praia de Costa Azul. Existe um painel dos Caminhos Geológicos. As rochas são ortognaisses datados em quase 2 bilhões de anos que passaram por intensa deformação em 520 milhões de anos, quando houve o evento colisional que formou o continente ancestral Gondwana. O fraturamento e erosão dessas rochas construíram uma bela paisagem com blocos empilhados de forma harmoniosa. Este local é uma Unidade de Conservação municipal do tipo Monumento Natural.

ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL MUNICIPAL DA LAGOA DE IRIRY
Localização: 22º30’31.55” S; 41º54’50.82” O
Descrição: Localiza-se no final da Praia de Costa Azul, em direção a Macaé. No local foram implantadas trilhas, um mirante e painéis interpretativos sobre a restinga, brejos e dunas e sua fauna e flora. A lagoa possui água salobra e sua cor de caramelo característica deve-se à matéria orgânica presente na turfa que ocorre na região.

PRAIA DO MAR DO NORTE
Localização: 22°27’07.4″ S; 41°51’19.5″ O
Descrição: Localizada aproximadamente a 15 km do centro de Rio das Ostras, a Praia do Mar do Norte é uma das maiores da região. A natureza ali é muito preservada. Com um mar muito azul, onde tartarugas podem ser avistadas, chamam a atenção os costões rochosos e um pequeno corpo d’água que chega à praia. Seus maiores frequentadores são moradores e praticantes de mergulho e pesca, que encontram grande variedade de peixes. Em uma caminhada desde o Tayra Eco-parque até a praia do Mar do Norte, podemos conhecer um pouco das estruturas do passado que moldam a atual paisagem. No alto, em um mirante natural de onde se tem uma bela vista de toda a região, podem-se ver nos barrancos os sedimentos da Formação Barreiras que formam paleofalésias, indicando a variação do nível do mar no passado recente, há 5 mil anos aproximadamente. Nos costões, podem ser observadas rochas metamórficas (ortognaisses e orto-anfibolitos) com aproximadamente 2 bilhões de anos, com estruturas que registram a colisão que formou o Supercontinente Gondwana há cerca de 500 milhões de anos. Cortando estas rochas, são observados diques de diabásio, rochas ígneas subvulcânicas, com cerca de 130 milhões de anos. Verifica-se, também, um tipo especial de sedimentação na praia composta, principalmente, por areia grossa a muito grossa ao longo das enseadas e cascalhos próximos aos costões, evidenciando a área-fonte desses sedimentos. Fraturas em diferentes direções despertam a curiosidade dos visitantes e servem para interpretar os esforços a que estas rochas foram submetidas a grandes profundidades, onde se formaram, e a resposta ao alívio de pressão ao chegarem à superfície após milhões de anos. Chama a atenção uma sequência de belíssimas imagens gravadas nas rochas do costão, atribuídas ao artista Luiz Cláudio Bittencourt – o Dunga. Um lindo lugar para conhecer!

PSEUDOMORFOS DE PSEUDOLEUCITA
Descrição: Em Rio das Ostras foi descoberta uma raridade mineralógica, cujo nome é bastante complicado: pseudomorfos de pseudoleucita. Leucita é o nome de um mineral. Minerais são os constituintes básicos das rochas. Um granito, por exemplo, é uma rocha ígnea formada principalmente pelos minerais quartzo, feldspato e mica. Já o calcário é uma rocha sedimentar que pode ser constituída principalmente pelo mineral calcita. Ou seja, uma rocha pode ser constituída por um ou mais minerais. Os minerais são naturais e possuem estrutura cristalina e composição química típicas. Acontece que, por vezes, podem ocorrer fenômenos em que um ou mais minerais passam a ocupar o lugar de outro e, assim, podem ficar com a sua forma. Os mineralogistas chamam a isto de pseudomorfismo. “Pseudo” é um prefixo de origem grega que significa falso. Assim, pseudomorfismo significa que a forma do mineral observado pertence a outro: é uma falsa forma. No Morro de São João, próximo à Rio das Ostras, podem ser vistas rochas ígneas plutônicas (onde a cristalização do magma e formação dos minerais se deram a grandes profundidades) com cerca de 60 milhões de anos. Lá, observam-se pseudoleucitas formadas por vários minerais que ocuparam o lugar da leucita que existia quando da cristalização da rocha. A leucita que existia foi modificada por interação com fluidos magmáticos. Essa troca química modificou a composição do mineral leucita, mas manteve a sua forma externa, resultando na chamada pseudoleucita (falsa leucita). O magmatismo que gerou o Morro de São João também promoveu diversas fraturas nas rochas já existentes e o magma pôde preencher essas fraturas. Estas foram preenchidas por rochas ígneas que saíram do corpo principal, o Morro de São João, e radialmente se distribuíram pelas áreas adjacentes, chegando até Rio das Ostras. Também nas rochas desses corpos, chamados de diques, houve a formação de leucita e sua alteração para pseudoleucita. Acontece que em Rio das Ostras ocorreu algo incrível. Com o passar dos milhões de anos, essas pseudoleucitas afloraram na superfície da Terra pela ação da erosão e outros processos. Ao chegar à superfície, essas rochas encontram um ambiente muito diferente daquele em que foram formadas, ficam em desequilíbrio químico e se alteram. Isto aconteceu com a pseudoleucita existente no dique de Rio das Ostras, porque a água da chuva e a água subterrânea promoveram nova substituição. A pseudoleucita, antes formada por minerais magmáticos, foi alterada quimicamente para uma mistura de bauxita e minerais de argila. Isto ocorreu, novamente, sem que houvesse alteração na sua forma externa. Assim, podem ser observados pseudomorfos de pseudomorfos, ou melhor, pseudomorfos de pseudoleucita. São muito raros, na verdade, nunca foram descritos em outro lugar do planeta. Essa raridade faz com que Rio das Ostras detenha um geossítio de importância internacional em nosso projeto.

Referências: Klein, C. & Dutrow, B. 2012. Tectossilicatos. Manual de Ciência dos Minerais, 23a ed. Bookman: 574-575 | Mota, C.E.M; Geraldes, M.C.; Almeida, J.C.H.; Vargas, T.; Souza, D.M.; Loureiro, R.O. Silva, A,P. 2009. Características Isotópicas (Nd e Sr), Geoquímicas e Petrográficas da Intrusão Alcalina do Morro de São João: Implicações Geodinâmicas e Sobre a Composição do Manto Sublitosférico. Geol. USP Sér. Cient; 9(1):85-100. | DRM-RJ,1982. Niterói: Folhas Morro de São João e Barra de São João. 1/50 000. [Niterói]:Projeto Carta Geológica do Estado do Rio de Janeiro | Jacques P. Cassedanne & S. de O. Menezes. 1989. “Pseudoleucite” Pseudomorphs from Rio das Ostras, Brazil. The Mineralogical Record; 20(6): 439-440.


PRINCIPAL SÍTIO DE INTERESSE HISTÓRICO-CULTURAL NA ÁREA DO GEOPARQUE:

MUSEU DO SÍTIO ARQUEOLÓGICO SAMBAQUI DA TARIOBA
Localização: 22°31’44.99” S; 41°56’28.38” O
Descrição: Inaugurado em 1999, o Museu do Sítio Arqueológico Sambaqui da Tarioba, é um dos primeiros museus sítio arqueológico “in situ” do Brasil, fazendo parte do importante patrimônio material brasileiro. Sambaquis são sítios arqueológicos caracterizados por conter material conchífero, ósseo, enterramentos, além de artefatos de rocha e outros materiais. Seu entendimento pode contribuir na compreensão da evolução e cultura das populações pré-históricas através do tempo, incluindo os registros da ocupação humana e, também, da fauna e flora existentes à época. O Sítio Arqueológico Sambaqui da Tarioba (SAST) foi descoberto em 1967 pela equipe do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) e a primeira etapa de escavação só ocorreu em 1998-99. A superposição das camadas arqueológicas do sítio ajuda a contar a história de sua ocupação. A mais antiga é a mais profunda e foi estabelecida sobre as areias de um antigo terreno pantanoso há quase quatro mil anos. A mais recente e mais superficial data de aproximadamente dois mil anos atrás. Para que o público pudesse conhecer a história contada pelo depósito do sambaqui, foi feita uma escavação linear para que os objetos, esqueletos, conchas, etc. possam ser observados em camadas ao longo das escavações através de uma passarela construída. Isto permite que o visitante acompanhe visualmente a sequência de camadas conservadas deste sítio. O espaço incentiva a prática de atividades educativo-culturais direcionada a escolas e atrai turistas curiosos em conhecer um pouco mais sobre a organização social e a cultura material do homem pré-histórico brasileiro. Pelas evidências recuperadas e pelos dados observados quando da escavação sistemática, os arqueólogos concluíram que se trata de um local habitado por populações basicamente integradas por caçadores-coletores. A presença de diversos tipos de organismos, especialmente conchas marinhas, restos de peixes, de variadas proporções, e ossos de outros animais de pequeno porte, indica, também, uma dieta alimentar variada para o grupo que ali habitou. A mais antiga ocupação (Camada I) deixou poucas evidências, mas o suficiente para comprovar sua existência pela coloração enegrecida do solo local, dada pela matéria orgânica, com alguma concha esparsa e média de 40 cm de espessura. A Camada II é constituída por argilas de composição variável, com muita concha e terra preta. É a mais complexa do sítio e foi construída em forma de montículo. Nesta camada foram encontradas muitas pequenas estacas fincadas no solo, provavelmente para assar alimentos, sendo também preservados os carvões e as cinzas de tais fogões. A Camada III apresenta-se diferenciada por ser constituída, basicamente, por terra preta, com mistura de argila e registro de muitos sepultamentos, além de bolsões de carvão (talvez fornos em buracos para assar alimentos). É rica em carvões e conchas. Já a Camada IV, mais recente, é rica em matéria orgânica, areia e conchas. Estas diferenças composicionais das camadas ao longo do tempo sugerem variações climáticas e alterações nos hábitos do grupo local. As pesquisas demonstram a existência de pelo menos 17 indivíduos enterrados, sendo que nove restos esqueletais (cinco adultos e quatro crianças) são provenientes de enterramentos organizados, ou seja, relativos a contextos funerários. O estudo do material lítico resgatado indica que predominam instrumentos para quebrar/bater e moer/pulverizar que, direta ou indiretamente, estariam basicamente envolvidos em atividades de processamento de alimentos. Machados também foram encontrados. Alguns artefatos foram pigmentados em cor vermelha. A matéria-prima mais utilizada no Sambaqui da Tarioba foi o quartzo, com cerca de 81% da totalidade do material analisado. Também foram identificados artefatos produzidos com gnaisse e rochas magmáticas. Os habitantes do Sambaqui da Tarioba utilizaram, principalmente, seixos, tal como coletado na natureza. Das mais de 200 peças estudadas, pouco mais de 150 correspondem a sua forma original. O Sambaqui da Tarioba tornou-se uma referência para a história e a memória da região e está disponível para visitação em exposição permanente na Casa da Cultura de Rio das Ostras, onde também são apresentadas exposições temporárias e realizadas oficinas. Localiza-se na Rua Dr. Bento Costa Jr., 70 – Centro e está aberto à visitação de segunda a sexta, de 9h às 18h, e sábado e domingo, de 14h às 18h. Devido à pandemia, recomendamos entrar em contato através do telefone (22) 2764-1768. Ao visitar o museu, você terá a possibilidade de conhecer um importante sítio cultural do nosso Geoparque. A preservação desses locais significa proteger o patrimônio material das comunidades que nos antecederam e manter viva sua memória.

Referências: Oliveira, R. A.; Monteiro de Abreu, R. M. R. 2010. Relações entre memória, história e o Museu de Arqueologia Sambaqui de Tarioba: Diálogos Possíveis. XIV Encontro Regional da ANPUH-Rio, Memória e Patrimônio. | Oliveira, R. A.; Monteiro de Abreu, R. M. R. 2010. Testemunhos e Narrativas sobre a Memória Indígena no Estado do Rio de Janeiro: Ressignificações e Produção de Novas Fontes de Pesquisa. X Encontro Nacional de História Natural, Testemunhos: História e Política. | Sítio Arqueológico Sambaqui da Tarioba | Sambaqui da Tarioba | Exposição comemora 20 anos do Museu Sambaqui da Tarioba

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