São Francisco de Itabapoana

Descrição Geral: Possui um litoral de 62 km. Entre as mais famosas praias estão Santa Clara, Guaxindiba, Lagoa Doce e Gargaú, localizadas junto ao complexo deltaico do rio Paraíba do Sul. O município possui como principal atividade econômica a agropecuária. No entanto, nos últimos anos, o setor de turismo vem se fortalecendo. Trata-se de um belíssimo território que merece ser visitado.

Geologia: Na região ocorrem sedimentos continentais da Formação Barreiras, com idade entre 10 e 20 milhões de anos. Estes sedimentos foram formados pelo retrabalhamento fluvial de rochas que ocorrem nas porções mais altas da bacia do rio Paraíba do Sul. Os depósitos atingem o litoral, onde, por ação direta das ondas, são esculpidas imponentes falésias. A concentração anômala de minerais como monazita, rutilo, zircão e ilmenita nos cordões arenosos, levou a construção de uma fábrica na localidade de Buena para concentração destes minerais, a unidade da INB (Indústrias Nucleares do Brasil), hoje em fase de desativação.

Histórico: Antes da ocupação europeia, a região onde hoje se localiza o município de São Francisco de Itabapoana era terra dos índios Goitacazes. Porém, quando da divisão do Brasil em capitanias hereditárias, passou a integrar a Capitania de São Tomé, ou Paraíba do Sul, concedida em 1536 a Pero Góis da Silveira. Ao se estabelecer na área, em 1539, escolheu para implantação do núcleo original o lugar que considerou de solo fértil e protegido das intempéries climáticas e dos índios goitacases, que dominavam a região. Houve um entendimento com os indígenas, possibilitando a primeira plantação de cana-de-açúcar, próxima ao Rio Itabapoana. O plantio de cana cresceu, mas devido a um desentendimento com as tribos coroado ao norte e goitacases ao sul, o cultivo foi abandonado. Em 1630, era fundado o povoado de São João Batista da Paraíba do Sul, atual sede do município de São João da Barra. Naquele momento, o atual município de São Francisco de Itabapoana era parte deste território. O cultivo da cana-de-açúcar foi logo introduzido naquela área, mas o aldeamento não conseguiu progredir rapidamente por causa dos ataques constantes dos indígenas. A região só voltou a ser efetivamente ocupada quando foi erguido um pouso de tropas no local, em torno do qual a população começou a se aglomerar. Desta herança comercial, ainda se pode conhecer o Barracão do Gargaú, hoje um centro cultural municipal. Em 1644, o núcleo urbano foi elevado à condição de freguesia, ocasionando maior fluxo de colonizadores, o que permitiu maior desenvolvimento para a lavoura canavieira. Na década de 1670, a freguesia teve determinada sua autonomia, recebendo o nome de vila de São João da Praia do Paraíba do Sul. Porém, o município foi anexado à capitania do Espírito Santo em 1753, retornando à Província Fluminense somente em 1832. Em 18/01/1995, através da lei estadual 2.379, São Francisco de Paula, transformou-se no segundo maior município do Estado do Rio de Janeiro em extensão territorial, São Francisco de Itabapoana. Do passado escravista, restaram duas comunidades remanescentes quilombolas que resgatam memórias do passado. O Quilombo da Barrinha reúne 70 famílias e, em sua hierarquia, as mulheres têm poder absoluto de decisão, sendo um dos poucos quilombos à beira-mar do Brasil. Já o Quilombo de Deserto Feliz, localizado na zona rural do município, reúne 35 famílias e tem o jongo como atividade em todo fim de semana. Da herança indígena e africana, a região produz uma maravilhosa farinha de mandioca em tradicionais casas de farinha (bolandeiras). O litoral municipal é limitado por dois dos principais rios do estado: a sul pelo Paraíba do Sul e a norte pelo Itabapoana. A palavra “Paraíba” vem do tupi pa’ra (rio) + a’iba (ruim), não navegável. Já “Itabapoana” deriva do termo tupi y-kûabapûana, que significa “correnteza de água” (no rio ou no mar).


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

FALÉSIAS DA FORMAÇÃO BARREIRAS NA PRAIA DA LAGOA DOCE, PONTA DO RETIRO
Localização: 21°22’51.61” S; 40°57’52.2” O
Descrição: A Praia da Lagoa Doce é uma das praias mais bonitas do município de São Francisco de Itabapoana, com pouco mais de 4 km de extensão. Possui paisagem exuberante, vegetação típica de restinga e mar raso e próprio para banho. Neste sítio destacam-se as falésias ativas na Ponta do Retiro e o farol da Marinha do Brasil de onde se tem uma ótima vista da paisagem. A praia se estende até a foz do rio Itabapoana, limite entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Por sua beleza e atributos geológicos e geomorfológicos, é um local muito atrativo para o turismo de lazer e, também, para atividades científicas e educativas. As falésias, que variam entre tons marcantes de vermelho ao branco, estendem-se por toda faixa de areia e chegam a alcançar até 10 m de altura. Essas rochas fazem parte de uma unidade geológica denominada Formação Barreiras, que ocorre desde o Amapá até o Rio de Janeiro. Estudos realizados dessa formação apontam para uma origem em ambiente fluvial num intervalo entre 5 e 2,5 milhões de anos atrás. Os sedimentos são continentais e marinhos rasos, e a denominação “Barreiras” vem sendo empregada desde a década de 1930 para descrever esses depósitos arenosos e argilosos, de cores diversas, normalmente muito ferruginosos. As falésias são escolhas bastante recorrentes de turismo, principalmente no litoral nordestino. Na região de São Francisco de Itabapoana, são encontradas as falésias mais altas do litoral fluminense. A formação das falésias se dá através dos processos erosivos que ao longo do tempo vão esculpindo o paredão íngreme. A erosão está relacionada à ação das ondas, ou seja, erosão marinha, na base da escarpa, que desgasta as rochas provocando o desmoronamento das paredes e formando as falésias. Nessa região, as falésias são consideradas ativas, pois, ainda estão sofrendo erosão marinha. Quando observamos as falésias, é possível notar diferentes cores e materiais. Após um olhar mais atento, percebe-se as relações entre os diferentes materiais. Os sedimentos podem ser mais finos ou ocorrem como cascalhos. Isto indica o tipo de energia do meio em que foi depositado. Quanto mais grosso o sedimento, maior energia é necessária para transportá-lo. Já para as cores, é possível notar que as partes superiores são mais claras. O óxido de ferro existente no sedimento é, por ação da água da chuva, principalmente, transportado para as partes inferiores das falésias, provocando uma “cimentação” dos grãos existentes e gerando espessas faixas de cor vermelha a castanha, resultado da precipitação do ferro. As partes superiores ficam, então, mais claras pela remoção do ferro. Ao visitar a Praia da Lagoa Doce, você poderá conhecer parte dessa unidade geológica tão importante na Geologia do Brasil, além de aproveitar o cenário composto por essas rochas tão instigantes quanto belas.

MINERAIS PESADOS EM BUENA
Localização: 21°24’18.2” S; 41°01’19.6” O
Descrição: Minerais pesados são importantes insumos para diversas indústrias. Em Buena, cerca de 15 km do centro de São Francisco de Itabapoana, encontra-se uma planta industrial que separa alguns desses minerais importantes da areia retirada de paleocordões litorâneos da região. Esses minerais são ilmenita, zirconita, rutilo e monazita. A ilmenita, que é um óxido de ferro e titânio, serve como fonte de titânio, sendo usada na indústria de pigmentos, ligas metálicas e proteção do revestimento de alto-forno. Já o zircão, um silicato de zircônio e fonte desse elemento, é usado na indústria cerâmica. Quanto ao rutilo, um óxido de titânio, também fonte desse elemento, utiliza-se na fabricação de tintas e na indústria de eletrodos para solda. A monazita é um fosfato de terras raras, urânio e tório. Esse fosfato é matéria prima importante na produção de terras raras, que são insumos para a fabricação de produtos como baterias recarregáveis, televisores, catalisadores automotivos e equipamentos da indústria do petróleo. Na década de 1940 foi iniciada a extração desses minerais pela Sociedade Comercial de Minérios Ltda (Sulba) e a partir de 1996, passou a ser gerida pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Atualmente, atua apenas no processo de separação e na comercialização dos minerais pesados na Unidade em Buena. A INB é uma empresa estatal do Ministério de Minas e Energia. Os minerais são beneficiados considerando suas propriedades magnéticas e densimétricas, separando, após várias etapas, os que são mais atraídos por meio de indução de corrente eletromagnética (como a ilmenita e a monazita) daqueles que não são atraídos (como rutilo e zircão). Esses minerais pesados encontram-se nos sedimentos depositados entre as desembocaduras dos rios Itabapoana e Paraíba do Sul. A origem de depósitos de minerais pesados se dá quando as rochas que os contêm são submetidas ao intemperismo. Este é um processo de alteração das rochas, resultante do desequilíbrio físico ou químico causado quando elas ficam expostas aos agentes superficiais, como por exemplo, rios, ventos, chuvas e gelo. A alteração das rochas resulta na liberação dos minerais que as constituem, sendo transportados até se depositarem. No caso dos depósitos de minerais pesados de Buena, os sedimentos são transportados pelos rios e depositados nas regiões costeiras. Dessa forma, interagem com as ondas do mar e correntes de deriva litorânea que distribuem esse material ao longo do litoral, concentrando os minerais mais pesados em determinados trechos. Os sedimentos são continentais e fazem parte de uma unidade geológica denominada Formação Barreiras, que ocorre desde o Amapá até o Rio de Janeiro. Nos últimos 120 mil anos, o litoral da região tem sido construído desta forma, com rios trazendo sedimentos. Os cordões percebidos em imagens de satélite são registros de paleopraias formadas em diferentes momentos em que houve variações do nível relativo do mar. Ou seja, estas modificações do nível do mar guardam o registro de acúmulo de minerais pesados no litoral. Ao visitar a região, observe atentamente a praia. Leve com você um ímã para testar o magnetismo dos minerais. Se algum mineral for atraído pelo ímã, saiba: este é o mineral magnetita! Note também que nas areias existem algumas concentrações de minerais mais escuros, já que as ondas levam os minerais claros, que são mais leves, e deixam para trás os mais escuros, que são os minerais pesados, ou seja, mais densos. Assim, os minerais se concentram e formam uma jazida, no qual representa um depósito mineral com valor econômico.

Referências: Sousa, S.S.C.G.; Castro, J.W.A.; Guedes, E. 2017. Variações granulométricas e minerais pesados das praias do norte do Estado do Rio de Janeiro, SE, Brasil: condições de distribuição e deposição dos sedimentos. Geociências, 36(2): 365-380 | INB | Ilmenita | Rutilo | Zircão | Monazita


PRINCIPAIS SÍTIOS DE INTERESSE HISTÓRICO-CULTURAL:

FAZENDA SANTANA
Localização: 21º19’ 42.71” S; 41º9’31.88” O
Descrição: A Fazenda Santana está situada na região de Praça João Pessoa. A construção fundada há mais de 140 anos, mantém todas as características originas de sua edificação por mão-de-obra escrava. Os móveis e objetos que decoram o antigo casarão de dois andares são todos da época. Outro ponto que se destaca na fazenda Santana é a mata de quatro hectares, toda plantada com espécies raras como o pau-brasil, peroba e braúna.

BARRACÃO DE GARGAÚ
Localização: 21º34’41.44” S; 41º3’49.84” O
Descrição: Construído com o intuito de se tornar referência do desenvolvimento interior, o Barracão de Gargaú é um prédio centenário. Estabelecido às margens do delta do rio Paraíba do Sul, o Barracão era responsável pelo comércio atacadista de todo a região. Os produtores rurais vendiam e compravam suas mercadorias. Suas paredes em madeiras maciças e o telhado em estilo colonial, com telhas confeccionadas artesanalmente, são símbolos de um passado próspero.

BOLANDEIRAS
Localização: 21º18’59.73” S; 41º3’26.39” O
Descrição: Mandioca, macaxeira ou aipim, a raiz cultivada pelos índios, que se transformou em um dos ingredientes mais populares da culinária brasileira, ainda é beneficiada de forma tradicional em São Francisco de Itabapoana. Conhecidas também como “casas de farinha”, as bolandeiras fabricam a farinha da mandioca e extraem dela o polvilho e a goma, com a qual se faz o famoso beiju. Nelas, a técnica rústica e a fabricação artesanal são fontes de renda de muitas famílias, que vendem a farinha e seus subprodutos em barracas à beira das estradas de acesso à cidade ou às praias são-franciscanas. As bolandeiras podem ser consideradas tanto patrimônio material quanto imaterial. Material por usarem de suas antigas e simples construções, onde utilizam antigos utensílios adaptados; e patrimônio imaterial por guardarem o mode de fazer, as técnicas ancestrais de fabricar farinha, polvilho e seus derivados.

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