Arraial do Cabo

Descrição Geral: Arraial do Cabo possui belíssima paisagem composta por dunas, costões, lagunas e praias. A cidade é conhecida como a “Capital do Mergulho” por suas águas limpas e claras, produto da ressurgência das águas frias da Corrente das Malvinas, que propiciou a criação da RESEX – Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, administrada pelo ICMBio, dada a piscosidade de suas águas transparentes. Suas principais atividades econômicas são o turismo e a pesca.

Geologia: Arraial do Cabo apresenta gnaisses do embasamento com 2 bilhões de anos. Cortando essas rochas ocorrem corpos de rochas ígneas com 130 milhões e 52 milhões de anos. Estas últimas ocorrem como corpos intrusivos na Ilha do Cabo Frio e no Pontal do Atalaia, principalmente. Destaque para o Brejo do Espinho com seus carbonatos formados por ação microbiana em ambiente hipersalino, sendo um local especial para estudar a história da vida na Terra.

Histórico: As terras que formam o território atual de Arraial do Cabo têm história geológica longa e intensa. Também presenciou vários fatos marcantes distribuídos em seus quase 5.000 anos de presença humana. Seus primeiros habitantes foram os indígenas Tamoios e Goitacazes, da nação Tupinambá, que habitaram com exclusividade essas terras até 1503, quando o navegador florentino Américo Vespúcio chegou com 24 homens para guardar o local sob o comando de João Braga, em uma pequena casa feita de barro e coberta de palha na Praia da Rama, hoje Praia dos Anjos, onde havia muito pau-brasil e outras riquezas naturais. Nesse local se encontra a Igreja de N. Sr.ª dos Remédios, sendo realizada a primeira missa em ambiente fechado do Brasil. Na mesma área foi colocado o marco comemorativo da chegada de Américo Vespúcio e onde também encontra-se a cacimba que abastecia de água a população de Arraial do Cabo. O povoado fundado por Américo Vespúcio foi o primeiro núcleo de população do Brasil e é nele que inicia o ciclo do pau-brasil. Quando os franceses foram expulsos do Rio de Janeiro, Arraial ficou abandonado e sujeito a ataques. Quando Constantino Menelau, governador do Rio de Janeiro, foi a Cabo Frio, transformou Arraial do Cabo em seu quarto distrito. Começa então o processo de colonização, crescendo lentamente com a sua população formada por pescadores. A região prosperou lentamente até o século 19, quando começou a explorar o sal da Lagoa de Araruama. Após período de colapso econômico, restabeleceu-se com a implantação da estrada de ferro, da rodovia e da Companhia Nacional de Álcalis, fundada em 20/07/1943. Em 13/05/1985, Arraial teve a sua emancipação assinada por Leonel de Moura Brizola, governador do Estado do Rio de Janeiro. Em 15/11/1985 foi eleito o primeiro prefeito a assumir a prefeitura de Arraial do Cabo em 01/01/1986.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

BREJO DO ESPINHO
Localização: 22º55’55.07” S; 42º14’20.83” O
Descrição: A relevância do Brejo do Espinho faz com que seja classificado como um geossítio de importância internacional. Isto ocorre devido à identificação de um possível mecanismo de formação do mineral dolomita por micro-organismos no seu ecossistema. O Brejo do Espinho é um corpo aquático costeiro com uma área de 1 km² e profundidade que varia de 1,0 a 1,5 m, podendo apresentar períodos de seca completa. É acessado pela RJ 102, que liga Praia Seca, em Araruama, e Arraial do Cabo. A formação geológica do Brejo do Espinho está associada às variações do nível relativo do mar, com momentos de avanço e retração da linha de praia. O nível do mar avançou em relação à costa provocando o afogamento das regiões mais baixas e uma interiorização da linha de praia. Posteriormente, ele recuou e a linha de praia se deslocou na direção do oceano. Estes movimentos deixaram registros na paisagem na forma de cordões arenosos, que correspondem ao posicionamento de antigas linhas de praia. O Brejo do Espinho está localizado em depressão entre dois cordões arenosos da Restinga da Massambaba, entre a Lagoa de Araruama e o mar. Estudos indicam que iniciou sua formação entre 7.200 e 6.000 anos, mantendo comunicação com outras lagoas da restinga até 4.100 anos, quando houve um rebaixamento do nível do mar. Atualmente, está dividido em três compartimentos, cujas dimensões e comunicação variam de acordo com as taxas de evaporação e precipitação durante o ano. As trocas de água entre o Brejo do Espinho, as lagoas vizinhas e o Oceano Atlântico ocorrem tanto por subsuperfície quanto por ondas que ultrapassam as dunas frontais localizadas na beira mar. Estes influxos somados às chuvas e à evaporação resultam em um sistema onde as águas oscilam de salobra a hipersalina. Vale ressaltar que a região onde está compreendida o Brejo do Espinho possui um microclima semiárido que se justifica por conta da ressurgência da Corrente das Malvinas na região que, intensificada pela ação dos ventos, induz a redução das chuvas e, consequentemente, eleva a evaporação e salinidade lagunar. A combinação destes fatores cria um ambiente propício à proliferação de micro-organismos, principais agentes biológicos que compõem os tapetes microbianos que revestem o fundo do Brejo. Ao colonizar o substrato, retiram cálcio e dióxido de carbono da água, produzindo, então, carbonato de cálcio e magnésio. Em épocas de seca, há uma elevada evaporação e essas estruturas ficam expostas, desidratando-se e formando, então, uma fina crosta de carbonato de composição mineralógica principal de aragonita, calcita magnesiana e dolomita. A dolomita é um mineral carbonático (CaMg(CO3)2) que tem sido estudado há várias décadas e sua origem é alvo de constantes debates. As principais dúvidas envolvem, por exemplo, distinção da dolomita de uma calcita rica em magnésio e se os processos que influenciam sua formação são inorgânicos e/ou orgânicos. A precipitação de dolomitas em ambientes modernos é um fenômeno extremamente raro. Portanto, o entendimento das características ambientais que controlam sua formação torna locais como o Brejo do Espinho especiais e verdadeiros laboratórios a céu aberto. O Brejo do Espinho é um geossítio de extrema relevância científica no território do Projeto Geoparque Costões e Lagunas do RJ. Neste local é possível observar processos da dinâmica costeira, estudar os registros de variações climáticas e admirar uma paisagem com dunas e vegetação de restinga em excelente estado de conservação. Ainda, podem ser avistados pássaros endêmicos e ameaçados de extinção, como o Formigueiro-do-Litoral (Formicivora litorallis). O painel do Projeto Caminhos Geológicos, bem como a sinalização de estrada elaborados para o local foram retirados. Porém, seu conteúdo pode ser baixado neste link.

Referências: Alves, C.B. 2016. Evolução geomorfológica do Brejo do Espinho (Região dos Lagos – RJ). Trabalho Final de Curso (Geologia), UFRJ, 69 p. | Barbosa, D.S. 2003. Sedimentação Orgânica na Lagoa Brejo do Espinho (Cabo Frio, RJ): Composição e Implicações Paleoclimáticas. Dissertação (Mestrado em Geoquímica), UFF, Niterói, RJ. 90 p. | Martins, E.G. 2014. Caracterização organofaciológica de três testemunhos (BE-02,BE-07 e BE-09) do Brejo do Espinho. Trabalho Final de Curso (Geologia), UFRJ, 51 p. | Valle, L.G. 2021. Gamaespectrometria e mineralogia de sedimentos carbonáticos na Lagoa Brejo do Espinho (RJ) durante o holoceno. Trabalho Final de Curso (Geofísica), UFF, 93 p.

ILHA DO CABO FRIO ou ILHA DO FAROL
Localização: 22º58’10.07”S; 42º1’9.91”O
Descrição: A Ilha do Cabo Frio, localizada no município de Arraial do Cabo, ocupa cerca de 6,5 km² e apresenta uma enorme geodiversidade, presença de sítios pré-históricos e históricos, lendas, histórias de naufrágios, rica biodiversidade e, ainda, está ao lado de uma ressurgência de águas frias, que completam sua riqueza em pescado e nutrientes no mar. Pertence à Marinha do Brasil e recebe visitação turística. Sua praia é considerada uma das cinco mais bonitas da América do Sul, segundo pesquisa do Tripadvisor. Possui dois faróis e sua posição é estratégica no litoral brasileiro, porque está localizada justamente onde a linha de costa sofre uma inflexão de Leste – Oeste para Norte – Sul (para quem vem do sul). Nesta região está localizado o Alto Estrutural de Cabo Frio. A Ilha possui os três tipos de rochas existentes na natureza: ígneas, sedimentares e metamórficas. A maior parte de seu território compreende rochas ígneas de composição alcalina (ricas em sódio e potássio), mas possui, ainda, outro tipo de rocha ígnea, o diabásio. Mas essas não são as mais antigas encontradas. As rochas ígneas se colocaram (os geólogos dizem intrudiram) em meio à outra pré-existente, uma rocha metamórfica, que ocorre na parte da Ilha mais próxima ao Boqueirão, no continente, e continua por toda a região, desde Maricá até Macaé. Também, na única e bela praia da Ilha, podem ser observados “beachrocks” (= rochas de praia), que são rochas sedimentares. Vamos começar pelas mais antigas, os gnaisses. Formaram-se há cerca de 2 bilhões de anos e fazem parte de um conjunto de rochas que possuem correspondente na África. Há 500 milhões de anos colidiram com o que era o antigo continente sul americano para compor, junto com Antártica, Índia e Austrália, principalmente, o que foi denominado Supercontinente Gondwana. Deformaram-se pela ação de temperatura e pressão nesse ambiente de colisão de placas tectônicas. Essa deformação pode ser vista nas estruturas dessa rocha, caracterizada pela intercalação de bandas claras e escuras. A rocha ígnea mais antiga da Ilha (diabásio) está contida em estruturas denominadas diques que são fraturas preenchidas por magma. Estas rochas, com 130 milhões de anos, são os registros da abertura do Oceano Atlântico, quando o Gondwana se quebrou. Elas são rochas cinza-escuras a pretas e ocorrem no costão da Ilha e no Boqueirão. Podem ser observadas intrudindo o gnaisse mais velho. Entretanto, as rochas ígneas dominantes na Ilha são as alcalinas. Elas não são comuns no mundo, mas no Estado do Rio de Janeiro ocorrem em muitas localidades. Sua idade é de 50 milhões de anos, quando já estávamos até distantes da África. Apesar de sabermos que magmatismo é um fenômeno que ocorre no limite de placas, nem sempre é assim! Essas se formaram quando a placa tectônica sul americana passou por cima de uma enorme anomalia de calor que provocou a fusão de material muito profundo que intrudiu os gnaisses do embasamento. Portanto, elas ocorrem em um grande corpo dentro do gnaisse e, também, em diques que, além do embasamento, cortam os diques de diabásio. Incríveis imagens dessa atividade podem ser vistas no Boqueirão. Vale lembrar que a Ilha não é a única manifestação desse magmatismo alcalino derivado da passagem da placa sobre a anomalia térmica, porque temos evidências desde Poços de Caldas, passando por Itatiaia, Mendanha, Nova Iguaçu, Morro de São João, entre outros. As da Ilha são as mais jovens desse conjunto alinhado de corpos alcalinos. Os “beachrocks”, rochas sedimentares, marcam a linha de costa do passado quando se formaram e a constituição sedimentar dessas antigas praias. São geralmente formados por areia de praia cimentada por carbonato de cálcio retirado de conchas e da água do mar, principalmente. No caso do “beachrock” da praia da Ilha, há uma interessante situação: os sedimentos que compõem a rocha são formados por 80% de fragmentos de algas vermelhas (rodófitas) e conchas. O restante é composto por fragmentos de rocha alcalina e quartzo. São os mais antigos “beachrocks” datados no litoral do Estado do Rio, alcançando idades desde 11 até 13 mil anos. Uma parte encontra-se submersa. Um local belíssimo muito visitado por turistas é a Gruta Azul, formada pela ação erosiva das ondas do mar. A erosão é um processo de desgaste da rocha e, no caso da gruta, ela é intensificada por vários planos de fraqueza na rocha. A Fenda de Nossa Senhora, importante ponto turístico e histórico, pode ser visitado em passeios de barco, sendo originada pela erosão no local onde há uma falha geológica. A falha, fratura movimentada por evento tectônico, torna-se uma descontinuidade onde a água do mar pode atuar mais fortemente, alterando e removendo as rochas existentes. Hoje existe apenas um espaço onde uma réplica da Nossa Senhora da Assunção foi colocada. A ilha se destaca por sua beleza cênica, sua geomorfologia, ou seja, a forma de relevo. Ela é dividida em dois compartimentos, sendo o primeiro, localizado a norte onde predominam as rochas alcalinas, composto por uma série de picos, com altitude máxima de 340 m. O segundo, localizado a sudoeste, tem altitudes mais baixas, onde encontramos praias e dunas. A geodiversidade segue se apresentando na forma de dunas que são empurradas pelo vento em direção ao morro localizado na praia. Sobre esta duna é observado um dos sambaquis existentes na Ilha. Sambaquis são sítios arqueológicos compostos por amontoados de conchas, material ósseo, artefatos produzidos com ossos e rochas, restos cerâmicos e outros materiais utilizados pelo habitante pré-histórico. Estudos indicam que esses sambaquis da Ilha se formaram entre 2.700 e 1.200 anos antes do presente. Sítios arqueológicos são importantes registros da humanidade no passado e são considerados patrimônio cultural brasileiro pela nossa Constituição. A ilha possui dois faróis, um deles já desativado. Foram construídos em 1836 (Farol Velho) e 1861 (Farol Novo). Sua importância para guiar os navegantes foi o motivo da construção e um dos mais célebres naufrágios que ali ocorreu foi o do Thetis, barco britânico, que naufragou em 1830, com ouro e prata da costa leste da América do Sul, cujo resgate do tesouro e histórias estão presentes em livros, pinturas e artigos científicos. A vegetação da Ilha é dominada por cactos e espécies que refletem o clima semiárido da região. Este clima é resultado da ressurgência, fenômeno causado pelo afloramento da Corrente das Malvinas, de águas frias e ricas em nutrientes, que migram pelo fundo do oceano até a superfície. Junto aos ventos de direção NE, as águas quentes nas partes mais rasas do oceano são empurradas e a água fria sobe, desfavorecendo a evaporação e, consequentemente, a formação de nuvens de chuva. As águas transparentes e piscosas tornam a área um paraíso do mergulho e, ainda, área de pesca tradicional, uma vez que foi transformada em RESEX (Reserva Extrativista) de pesca, gerida pelo ICMBio. A Ilha do Cabo Frio e sua vasta diversidade são uma excelente sala de aula a céu aberto para compreendermos alguns dos fatores chaves da evolução do nosso planeta. É um incrível ponto turístico de beleza cênica extraordinária, mas é, também, um laboratório científico de valor incalculável: um rico patrimônio natural cujo valor precisa ser conhecido, divulgado e resguardado.

Referências: Oliveira, F.M. 2016. Mapeamento geológico e geoquímica da Ilha do Cabo Frio, Arraial do Cabo, RJ. Trabalho de conclusão de curso (graduação). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Departamento de Geologia, 82p. | Savi et al. 2005. Beachrock e o Sambaqui da Ilha do Cabo Frio. X Congresso da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário, Guarapari | Castro et al. 2012. Rochas de Praia (Beachrocks) da Ilha do Cabo Frio, Arraial do Cabo: Registro Geológico Ímpar da Transição Pleistoceno – Holoceno no Estado do Rio de Janeiro. Anuário do Instituto de Geociências da UFRJ, 35(1): 246-241

ALTO ESTRUTURAL DE CABO FRIO
Localização: 22º58’15.83” S; 42º1’16.03” O
Descrição: Na escola, aprendemos sobre bacias hidrográficas, no entanto, nem sempre nos é explicado o conceito e a origem das bacias sedimentares. Estas são depressões para onde convergem os sedimentos (partículas de diversos tamanhos e composições) transportados pela água, vento, geleiras, etc. Temos no litoral do território do nosso projeto duas importantes bacias sedimentares brasileiras: Bacia de Campos e Bacia de Santos, separadas por uma faixa alongada, cujo eixo se orienta na direção noroeste – sudeste. Nestas bacias, estão localizados os mais importantes campos de produção de petróleo e gás do Brasil. A esta faixa é dado o nome de Alto Estrutural de Cabo Frio, que se estende desde o continente até muitos quilômetros mar adentro e passa na região das cidades de Arraial do Cabo e Cabo Frio. Apesar de não ser possível enxergar diretamente o subsolo, a Geofísica permite revelar o que está oculto. Assim como a ultrassonografia dá uma visão do bebê ainda na barriga da gestante, os métodos geofísicos viabilizam o estudo do que não se pode ver diretamente, por isso são denominados métodos indiretos. Essa tecnologia utiliza várias propriedades das rochas, como a densidade e o magnetismo. Há também os métodos diretos para estudo de uma bacia sedimentar através de testemunhos de sondagem, por exemplo, onde são obtidas amostras de rochas do subsolo durante a perfuração de um poço. A formação dessas bacias e do Alto Estrutural está relacionada à quebra do Supercontinente Gondwana, que ocorreu há aproximadamente 130 milhões de anos, separando o continente Africano da América do Sul e resultando na abertura do Oceano Atlântico. Durante a separação dos continentes, houve soerguimento das rochas já existentes, dando início à formação dessa faixa que separou as bacias rebaixadas. Entre 80 e 40 milhões de anos, ocorreu, ainda, outro evento geológico que pode ter influenciado também na formação do Alto Estrutural de Cabo Frio, o vulcanismo. A Geofísica também mostra vários corpos vulcânicos em subsuperfície que acompanham a direção deste alto. A evolução dessas bacias está ligada com a abertura do Oceano Atlântico. Este processo resultou em grandes depressões que formaram lagos profundos, como aqueles que hoje ocorrem no leste da África. Nesses lagos, salinos e quentes, acumularam-se depósitos de sal, carbonatos e micro-organismos. A preservação de matéria orgânica nos sedimentos tornou-se essencial para geração de óleo e gás nas bacias. Após a abertura do oceano, quando já formado e bem desenvolvido, ocorreu deposição de sedimentos provenientes de altas montanhas existentes no continente, gerados pela ação intensa do intemperismo e erosão. Ao longo de milhões de anos de evolução, a matéria orgânica acumulada vai sendo continuamente soterrada e fica, então, submetida a uma pressão e temperatura tal que a transforma em hidrocarbonetos (petróleo bruto). Condições especiais devem ocorrer para que este óleo migre e se acumule em quantidade para que sua extração seja economicamente viável. Depois de bombeado, o hidrocarboneto precisa ser refinado para obtenção dos derivados utilizados pela indústria como, por exemplo, a gasolina e o plástico. Assim, com conhecimento e tecnologia é possível retirar o óleo e gás em profundidades de milhares de metros, tanto de coluna de água do mar, quanto de rocha no fundo oceânico. Este é um recurso não renovável, que leva milhões de anos para se formar e que, portanto, devemos buscar todos os meios para utilizá-lo de forma equilibrada e responsável.

LAGOA DE ARARUAMA
Localização: 22°54’40.4” S; 42°21’29.2” O
Descrição: A Lagoa de Araruama é um geossítio de extrema relevância no nosso território, não só por ser a maior sistema lagunar hipersalino em estado permanente da Terra (cerca de 220 km²) como pela raridade do ecossistema em que ocorre. Banha os municípios de Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Arraial do Cabo. A existência da Lagoa representa uma parte relativamente recente da história da Terra, correspondente aos registros de avanços e recuos do nível relativo do mar nos últimos 120 mil anos, ou seja, compreende o final do período Quaternário (pequena parte do Pleistoceno e todo o Holoceno, que é o nome da época em que vivemos). As variações no nível do mar muitas vezes representam mudanças climáticas cíclicas em nosso planeta, causadas por períodos de glaciação entremeados com momentos mais quentes, os interglaciais. Essas mudanças foram fundamentais para a deposição dos sedimentos na Restinga da Massambaba e para a existência deste sistema lagunar tão especial. Pela observação da imagem de satélite é possível perceber que a Lagoa de Araruama está separada do mar por um grande cordão arenoso, onde estão instaladas pequenas lagunas, como as Lagoas Vermelha, Pitanguinha, Pernambuca, Brejo do Espinho, entre outras. Estudos e datações revelaram que este cordão é composto por dois cordões de idades bem distintas, sendo que o mais velho não ocorre em toda a extensão da Massambaba e está mais próximo à Lagoa de Araruama (chamado de barreira interna). Ele foi associado à elevação do nível do mar que ocorreu há cerca de 120 mil anos, formando uma enseada onde hoje está a Lagoa de Araruama. Mas, no final do Pleistoceno, houve um período glacial bastante intenso, que fez recuar o nível do mar por conta do congelamento de água nos polos e continentes. Este recuo fez com que sedimentos se depositassem e houvesse a formação desse cordão mais velho e interno, cuja formação também foi facilitada pelo transporte de sedimentos pelas correntes marinhas. Posteriormente, entre 7 e 5 mil anos A.P (antes do Presente), houve uma nova elevação do nível do mar. A que ocorreu há 5 mil anos é considerada a maior do Holoceno e alcançou cerca de 3 m acima do nível atual. O mar novamente invadiu a Lagoa de Araruama, destruindo parte da barreira interna. No recuo do nível relativo do mar, que ocorreu após este momento, houve a formação por sedimentação da barreira externa que, assim, deixou seu registro nas pequenas lagunas existentes no interior do cordão. Sua hipersalinidade peculiar está associada ao fenômeno da ressurgência. Esse fenômeno é causado pela Corrente das Malvinas, de águas frias, que migram pelo fundo do oceano até que alcança a Ilha do Cabo Frio, ou Ilha do Farol, em Arraial do Cabo. Com os ventos de direção NE, as águas quentes nas partes mais rasas do oceano são empurradas e essa água fria sobe à superfície. Isto desfavorece a evaporação e, consequentemente, a formação de nuvens de chuva. Além disso, os ventos também dispersam as nuvens que não encontram barreiras de montanhas para provocar a precipitação na região. Esse conjunto de fatores gera um clima semiárido. Assim, são raros os rios e córregos para abastecer a Lagoa de Araruama e todo o sistema com água doce. A insolação e os ventos fortes favorecem a evaporação da água da lagoa, tornando-a hipersaturada em sais. Esta peculiaridade é responsável pela existência histórica das salinas na região, que emprestam beleza à paisagem com seus cata-ventos. Além disso, propicia as condições para formação de estromatólitos.

Referências: Prado, T.P.M. 2016. Caracterização de Fácies e Interpretação Paleoambiental em um Testemunho de Sondagem na Lagoa Vermelha, Planície Costeira de Araruama (Região dos Lagos), RJ. Trabalho de conclusão de curso (graduação), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Departamento de Geologia 53p. | Mansur, K.L. 2010. Diretrizes para Geoconservação do Patrimônio Geológico do Estado do Rio de Janeiro: o caso do Domínio Tectônico Cabo Frio [Rio de Janeiro]. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Programa de Pós-Graduação em Geologia, 214p. | Gênese da Morfologia do Fundo da Lagoa de Araruama e Cordões Litorâneos Associados | Estudo Preliminar da Climatologia da Ressurgência na Região de Arraial do Cabo, RJ

PONTAL DO ATALAIA
Localização: 22°59’20.4” S; 42°00’47.2” O
Descrição: O Pontal do Atalaia é um dos principais pontos turísticos da região por conta de sua beleza exuberante e praias paradisíacas de águas cristalinas. Acessadas por uma escadaria, As Prainhas, assim conhecidas, são duas praias que se unem quando a maré está baixa. Completa a paisagem uma duna muito branca e uma pequena gruta, no canto direito da praia (de quem olha para o mar), nomeada de Gruta do Amor. O acesso ao local pode ser feito pelo mar, através de passeios de barco, ou pela estrada. A rocha mais abundante no Pontal do Atalaia são, também, as mais antigas, com idade aproximada de 2 bilhões de anos, chamadas de rochas do embasamento. Há cerca de 500 milhões de anos, por conta da movimentação das placas tectônicas, essas rochas, então pertencentes ao continente africano, sofreram uma colisão com a antiga América do Sul gerando o Supercontinente Gondwana que, além desses dois continentes, incluía, também, os territórios da Índia, Austrália e Antártica, entre outros fragmentos menores. Durante esse evento de colisão, as rochas se dobram, quebram e seus minerais se orientam em planos. Tudo isto é provocado pelas condições de pressão e temperatura muito elevadas nestes ambientes colisionais, formando, assim, rochas metamórficas que, neste caso, são gnaisses. Tempos depois, há cerca de 130 milhões de anos, ocorreu a quebra do Gondwana o que, aliás, faz parte do processo da Tectônica de Placas. A partir desta quebra, foi aberto o Oceano Atlântico. A quebra ocorre devido ao magmatismo (fusão das rochas) causado por intensa anomalia de calor no interior da Terra. O magmatismo geralmente acontece no limite entre placas tectônicas, pois as rochas, em temperatura muito elevada, fundem-se, formando magma. Com este material fundido chegando à superfície, as rochas existentes se quebram e o magma preenche essas fraturas. Como a rocha mais velha é mais fria, ocorre a cristalização do magma, gerando então uma rocha ígnea. Assim são formados diques e soleiras de uma rocha denominada de diabásio, que são corpos tabulares intrudidos no embasamento. Posteriormente, há 50 milhões de anos, outras rochas ígneas intrudiram a região. Sua maior ocorrência está na Ilha do Farol, localizada bem em frente ao Pontal. Possuem composição bem diferente das anteriores e se apresentam como vários tipos de rocha cuja composição é alcalina, rica em sódio e potássio. Essas são menos comuns no mundo, mas ocorrem bastante no estado do Rio de Janeiro. Apesar de o magmatismo ser um fenômeno comum no limite entre placas tectônicas, existem exceções, como é o caso deste magmatismo mais novo. Já separada da África, em seu movimento para oeste, a placa Sul Americana passou sobre uma anomalia de calor, trazendo rochas das profundezas que fundiram e intrudiram nas rochas ali pré-existentes. As rochas alcalinas dessa região podem ser vistas cortando as outras. Essa relação de corte permite a datação relativa das rochas, já que se sabe que uma rocha que foi cortada por outra é mais antiga que aquela que a cortou. Além da duna, que é um processo eólico constante, chama à atenção a existência de sítios arqueológicos na Ilha, no Pontal e em outros locais do município, revelando vestígios da ocupação humana pré-histórica na região. Visitando o Pontal do Atalaia, você se sentirá como nas praias do Caribe, paradisíacas, calmas e de águas surpreendentemente cristalinas, e, ainda, poderá conhecer uma parte da tão rica história Geológica e Arqueológica de Arraial do Cabo.

Referências: Figueiredo, G.R. Caracterização Petrográfica e Geoquímica do Magmatismo no Pontal do Atalaia, Município de Arraial do Cabo – RJ. Trabalho de conclusão de curso. Departamento de Geologia, IGEO, UFRJ, 86p. | Prainhas do Pontal do Atalaia


PRINCIPAIS SÍTIOS DE INTERESSE HISTÓRICO-CULTURAL:

ALTO ESTRUTURAL DE CABO FRIO / AMAZÔNIA AZUL / MUSEU OCEANOGRÁFICO DE ARRAIAL DO CABO
Localização: 22º58’15.83” S; 42º1’16.03” O
Descrição: Neste ponto existem três atrativos: painel do Projeto Caminhos Geológicos sobre o Alto Estrutural de Cabo Frio; um outro painel colocado pelo Ministério da Marinha sobre o mar; e o Museu Oceanográfico. Os painéis localizam-se na Praia dos Anjos, em frente ao Museu Oceanográfico da Marinha.

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