São João da Barra

Descrição Geral: Possui belas praias com grande atrativo turístico como Grussaí e Atafona. Suas principais atividades econômicas são turismo, agropecuária, olericultura e fruticultura nativa, pesca e artesanato. Grande parte da arrecadação municipal, quase 70%, vem do repasse dos royalties do petróleo. Destaque para a Antiga Casa de Câmara e Cadeia Municipal – único prédio do município que sobrou da época colonial. As molduras das janelas inferiores são compostas pelos gnaisses kinzigítico e facoidal, ambos provenientes da cidade do Rio de Janeiro. A construção está incluída na lista de imóveis que possui a certificação internacional Herity, que é a organização mundial para a certificação de qualidade da gestão do patrimônio cultural e parceira da UNESCO.

Geologia: No município ocorrem, principalmente, os sedimentos que constroem o complexo deltaico do rio Paraíba do Sul, formado por sucessivas cristas arenosas, que representam antigas linhas de praia em evolução. Elas podem ser vistas perfeitamente em imagem de satélite. No delta, desde os anos 1950, a vila de Atafona vem sofrendo um processo de erosão, onde a ação do mar destruiu uma área correspondente a quase 15 quarteirões. A quantidade de sedimentos que chega pelo rio e a força de suas águas, em comparação com a energia das ondas e das correntes litorâneas, são os fatores determinantes para a ocorrência de períodos erosivos ou de deposição. Vale destacar que a Lagoa Salgada faz parte deste complexo deltaico e que abriga ocorrências de estromatólitos carbonáticos recentes. Em ambos os locais foram implantados painéis do Projeto Caminhos Geológicos, cujos conteúdos podem ser vistos em nosso website.

Histórico: Até a chegada dos portugueses ao Brasil, no século XVI, toda a região da foz do Rio Paraíba do Sul era ocupada pelos indígenas Goitacazes. No século XVII, a partir de 1622, com o fracasso da Capitania de São Tomé ou Paraíba do Sul, a foz passou a ser colonizada por pescadores provenientes de Cabo Frio. Data de 1630 a construção da pequena Ermida em louvor a São João Batista, meia légua acima da foz, que daria origem ao povoamento de São João Batista da Barra ou de São João Batista do Paraíba do Sul, cuja economia girava em torno da pesca, criação de gado e o início da cultura da cana. Em 1644, o povoamento é elevado à freguesia e, logo em seguida, à categoria de Vila de São João da Praya, em 1676. Já no século XVIII, o transporte fluvial ganha força devido ao escoamento da produção açucareira para Salvador, Bahia. O crescimento do porto acarretou desenvolvimento urbanístico da vila, aumentando a população. Novas ruas foram abertas, entre elas as ruas do Rosário, de São Benedito (atual rua dos Passos), Sacramento e da Banca. Melhorias na Igreja Matriz e na Casa da Câmara e Cadeia Pública também aconteceram neste período. No início do século XIX, quando a Família Real se mudou para o Brasil, São João da Barra, que já se dedicava ao comércio, passou a suprir as necessidades da Corte. O forte e crescente desenvolvimento fez com que, em 1847, D. Pedro II visitasse a vila e em 17/06/1850 decretasse a elevação da Vila de São João da Praya à categoria de Cidade, denominando-a São João da Barra.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

LAGOA SALGADA
Localização: 21°54’28.4” S; 41°00’43.6” O (Divisa dos Municípios de São João da Barra e Campos dos Goytacazes, na localidade Barra do Açu)
Descrição: A Lagoa Salgada, localizada no limite entre os municípios de São João da Barra e Campos dos Goytacazes, é um geossítio de extrema importância para o nosso projeto de Geoparque e está inserida num contexto de cordões arenosos, que revelam, em seus sedimentos, registros das variações do nível relativo do mar nos últimos 5 mil anos. Porém, o que a torna tão importante não são apenas esses registros, mas a presença de estromatólitos que vêm sendo estudados por cientistas de todo mundo.  A Lagoa Salgada é uma laguna cuja salinidade é variável, podendo ser salobra, salgada ou até mesmo ter a salinidade mais alta que a do mar. Foi formada há cerca de 5 mil anos, quando houve um aquecimento climático que provocou o aumento do nível do mar, inundando o litoral e formando enseadas. Posteriormente, o nível do mar voltou a descer e as correntes litorâneas traziam sedimentos, que eram distribuídos ao longo do litoral, possibilitando o fechamento da laguna. Após o seu isolamento, as condições de salinidade e hidrodinâmica se tornaram propícias para o crescimento de micro-organismos, responsáveis pela formação dos estromatólitos. Por essa razão, são denominados bioconstruções. O nome estromatólito significa “tapete de pedra” e são rochas geradas pela ação de micro-organismos. Esses pequenos seres vivos possuem um metabolismo dependente do processo de fotossíntese e vivem no fundo da laguna, colonizando o substrato. Durante a fotossíntese, retiram cálcio e dióxido de carbono da água, produzindo, então, carbonato de cálcio. Uma vez que esse material carbonático se acumula, sucessivamente, ocorre a formação do que chamamos de esteiras microbianas, que futuramente tornam-se estromatólitos. Estromatólitos representam o primeiro registro de vida macroscópico na Terra, cerca de 3,5 bilhões de anos atrás. Nesse momento, a atmosfera primitiva não continha oxigênio, mas o ambiente marinho estava dominado por cianobactérias fotossintetizantes, que enriqueceram a atmosfera com o oxigênio que liberavam. Os estromatólitos da Lagoa Salgada são recentes e, por essa razão, este geossítio é um laboratório natural para o estudo da origem da vida na Terra. Exemplares dos estromatólitos da Lagoa Salgada foram datados em cerca de 2.220 anos em sua base e 260 anos no topo, ou seja, sua formação se deu em aproximadamente 2 mil anos, determinando uma taxa de crescimento de cerca de 1 cm a cada 100 anos. Por esse processo ocorrer de forma tão lenta, os estromatólitos são bastante vulneráveis. Locais como a Lagoa Salgada são raríssimos no mundo e junto com os estromatólitos existentes no sistema lagunar de Araruama (Restinga da Massambaba) são únicos no Brasil. Variações na salinidade da lagoa, pisoteamento pelo gado e retirada de estromatólitos para fazer cercas nas propriedades ameaçam este patrimônio. Somente parte da Lagoa Salgada está protegida pelo Parque Estadual da Lagoa do Açu (PELAG). Além de todo conhecimento que pode ser obtido através desses estromatólitos, eles também são similares às rochas-reservatório das camadas do Pré-Sal. Desta forma, são estudados, também, para entendimento da origem dessas importantes jazidas de petróleo e gás do Brasil. A Lagoa Salgada é um patrimônio natural de relevância internacional e tem grande potencial Geoturístico e Geoeducacional. Proteger este local é de suma importância para que os processos continuem ocorrendo naturalmente, revelando mais informações sobre uma antiga história do nosso planeta que ainda ocorre nos dias atuais.

DELTA DO RIO PARAÍBA DO SUL / ATAFONA
Localização: 21°37’30.96″ S; 41°0’50.75″ O
Descrição: O Complexo Deltaico do Rio Paraíba do Sul é um dos exemplos clássicos de delta no Brasil. Também é muito estudado porque está localizado na área emersa da Bacia de Campos, uma de nossas mais importantes bacias sedimentares produtora de óleo e gás. Ele é caracterizado pela presença, a norte e a sul, de cordões arenosos que representam as antigas linhas de praia que foram evoluindo ao longo dos últimos 120 mil anos desde a área da Lagoa Feia até a atual foz. Podem ser bem visualizados nas fotografias aéreas ou imagens de satélite da região. Esses cordões se formam pela redistribuição de sedimentos ao longo do litoral pelas correntes marinhas, pela ação do vento sobre os sedimentos nas praias ou, ainda, pela ação das ondas e sua interação com a força da água e os sedimentos trazidos pelo rio Paraíba do Sul. Delta é um depósito de sedimentos caracterizado por uma feição geológica que ocorre quando um rio encontra outro corpo d’água, provocando, pela diferença de energia entre eles, a deposição de sedimentos por ele transportados. Sua forma triangular gerou o nome delta, derivado da letra grega. No caso do rio Paraíba do Sul, sua foz se dá no seu encontro com o Oceano Atlântico em Atafona, São João da Barra. A partir da década de 50, Atafona vem sofrendo um processo de erosão costeira. Nesse processo, as praias estão sendo erodidas, de forma que o mar tem avançado sobre o litoral. Desde então, o mar já derrubou cerca de 200 construções, como escolas, igrejas, postos de gasolina, comércio, faróis e moradias, compreendendo uma área de aproximadamente 15 quarteirões. O processo de erosão no local consiste na remoção dos sedimentos pelas ondas e transporte pelas correntes marinhas e vento. Os processos erosivos têm o papel de modelar relevos da superfície terrestre, mas em Atafona, além disso, tem-se a destruição de parte do patrimônio da população. A velocidade do processo de erosão é variável ao longo do ano e o mar avança anualmente cerca de 3 metros sobre Atafona. O sedimento é transportado para sul pelas correntes marinhas e ventos que sopram da direção nordeste, levando-o para a Praia de Grussaí, também em São João da Barra. Ou seja, à medida que Atafona perde seus sedimentos, Grussaí os recebe, tornando sua faixa de areia cada vez mais larga. Trata-se de um balanço entre os sedimentos que chegam ao delta e aqueles que o mar e o vento conseguem retirar e transportar. Processos Naturais: a) Estiagem: um rio com pouca água tem menor capacidade de transporte de sedimentos. Ou seja, quando há uma diminuição na quantidade de sedimentos transportados para o delta, o processo de erosão é mais eficaz que o processo de construção. Outro aspecto importante é que durante uma seca, o mar cria uma barreira hidráulica natural, levando à deposição dos poucos sedimentos que chegam ao delta (como ocorreu recentemente), fechando parcialmente a saída de água para o mar; b) Intensificação dos ventos de quadrante Nordeste: gera uma dispersão nos sedimentos que deveriam se acumular no delta, mas que são transportados para Sul; c) Correntes marinhas: as ondas remobilizam os sedimentos trazidos pelo rio, que são redistribuídos pela corrente litorânea dirigida para o Sul. Processos Antrópicos: a) Retirada de água do rio para abastecimento das cidades: a redução do volume de água do rio também diminui a ação da barreira hidráulica que ele produz, desprotegendo o delta e levando à erosão dos sedimentos trazidos pelo rio; b) Construção de barragens para regularização do fluxo do rio: barragens evitam enchentes e inundações, mas dificultam a chegada dos sedimentos até a foz, fazendo com que a erosão seja mais eficaz do que a sedimentação do delta; c) Retirada de areia do canal do rio para a construção civil: também diminui a quantidade de sedimentos que poderiam chegar à foz. Assim, esta batalha entre o rio e o mar segue seu curso. A dinâmica costeira é implacável. Se você visitar Atafona a cada 6 meses verá uma paisagem diferente. Acredite! Há um painel do Projeto Caminhos Geológicos sobre Atafona no local. Assista também ao vídeo do campo virtual no Delta do Rio Paraíba do Sul, promovido pelo Laboratório de Geografia Física da UFF (LAGEF).

CAIS DO IMPERADOR E CAIS DA IMPERATRIZ
Localização: 21°38’0.582” S; 41°02’59.564” O (Cais do Imperador) | 21°38’7.206” S; 41°03’2.642” O (Cais da Imperatriz)
Descrição: O transporte fluvial pelo Rio Paraíba do Sul foi de grande importância para o desenvolvimento do município de São João da Barra, que manteve inicialmente sua economia de subsistência na pesca, criação de gado e cultivo da cana de açúcar. Foi através do escoamento da produção açucareira que houve o crescimento do porto e, assim, da cidade e sua população também. Em 1847, os moradores da Vila de São João da Praia receberam a ilustre visita do Imperador D. Pedro II, que prometeu torná-la cidade. Ele desembarcou de sua galeota em um porto, posteriormente nomeado Cais do Imperador, localizado na praça que estava preparada com um tapete de folhas e flores, conduzindo-o até a Igreja Matriz. Ele visitou a Casa de Câmara e Cadeia e ainda fez uma doação para a construção de uma casa de caridade, além de examinar alguns papéis. Em 1850, o Imperador assinou o decreto oficializando a cidade de São João da Barra. O Cais do Imperador está localizado na Praça dos Quiosques, próximo a ele há outro cais, conhecido como Cais da Imperatriz. Este nome foi uma alusão à esposa de D. Pedro II, a Imperatriz Dona Teresa Cristina, devido a suas visitas a São João da Barra e, em especial, a sua vinda juntamente com o Imperador para a inauguração da Usina Barcelos, em 1878. A usina foi instituída pelo decreto n° 5277/1876 para estabelecimento de engenhos centrais no Brasil. Foi a primeira indústria na região a não utilizar a mão-de-obra escravizada, sendo responsável pelo surgimento da localidade de Barcelos, sendo hoje o 6° Distrito de São João da Barra. O piso dos Cais do Imperador e da Imperatriz são do tipo conhecido como pé-de-moleque, onde os blocos irregulares de rocha são assentados lado a lado formando uma espécie de mosaico. As rochas utilizadas não são da região, onde predominam sedimentos inconsolidados, menos resistentes, características de ambiente fluvial e costeiro. Então foram utilizadas rochas metamórficas provenientes do Rio de Janeiro. Essas rochas são gnaisses de dois tipos: Gnaisse Leptinítico, uma rocha clara, com presença de quartzo, feldspato, pouca biotita e minúsculos cristais de granada; e Gnaisse Facoidal, onde se destacam grandes cristais de feldspato. Essas e outras rochas do Rio de Janeiro também foram utilizadas em construções tombadas como patrimônio em São João da Barra, as quais podemos citar a cantaria da porta principal da Igreja Matriz de São João Batista e as molduras da janela na Antiga Casa de Câmara e Cadeia Municipal, ambos belos prédios históricos e conservados. Além do valor histórico-cultural e científico, a beleza da paisagem se destaca, onde o pôr-do-sol no Rio Paraíba do Sul é um espetáculo à parte.

Referências: Albani, R.A.; Mansur, K.L.; Santos, W.F.S.; Pinto, A.L.R. 2020. Além do Turismo de Sol e Praia: Uma Proposta de Roteiro Geoturístico para o Município de São João da Barra, RJ. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, 43:402-414 | Histórias de São João da Barra | Príncipe Bertrand em Visita a São João da Barra | Galeria Histórica de São João da Barra


PRINCIPAL SÍTIO DE INTERESSE HISTÓRICO-CULTURAL:

ANTIGA CASA DE CÂMARA E CADEIA MUNICIPAL / CENTRO CULTURAL JOÃO OSCAR DO AMARAL PINTO
Localização: 21°38’5.53″ S; 41° 2’58.93″ O
Descrição: Único prédio do município que sobrou da época colonial. Esta obra foi iniciada em 1794 e terminada em 1797. A argamassa de suas paredes de 1,5 m de espessura foi misturada com óleo de baleia. As janelas inferiores têm grossas grades triplas de ferro e suas molduras são compostas pelos gnaisses kinzigítico e facoidal, ambos provenientes da cidade do Rio de Janeiro. A construção está incluída na lista de imóveis que possui a certificação internacional Herity, que é a organização mundial para a certificação de qualidade da gestão do patrimônio cultural e parceira da UNESCO. Para adquirir esta certificação, são levados em consideração quatro critérios básicos: percepção do bem cultural (relevância), estado de manutenção e restauro (conservação), informação transmitida ao visitante (comunicação) e qualidade de acolhimento (serviços). Entre os anos de 1815 e 1817, um importante naturalista, o Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, percorreu os atuais estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre história natural e geografia, Maximiliano e sua expedição se hospedaram por dois dias na Casa de Câmara da vila de São João da Barra onde prepararam para refeição um jacaré que fora caçado no rio Paraíba do Sul. Na primeira reforma que sofreu, em maio de 1967, realizada pelo IPHAN, descobriu-se um túnel sob o prédio, um fojo, que liga as celas ao rio Paraíba do Sul. Segundo Fernando José Martins, no porto de Gargaú estacionavam naus piratas. Daí, talvez, o reforço da cadeia pública. Um alçapão existente no andar superior fez surgir a lenda que na época colonial servia para lançar diretamente nas celas do andar inferior os vereadores cujos votos ou opiniões desagradassem a presidência. O prédio da antiga Cadeia Pública e Casa de Vereança guarda segredos e lendas entre grossas paredes e as grades triplas de ferro nas janelas do seu andar inferior!

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