São Pedro da Aldeia

Geologia: Apresenta rochas de 2 bilhões de anos, idade das rochas mais antigas, além de 500 milhões de anos, formadas durante a amalgamação do paleocontinente Gondwana. Afloram, também, depósitos sedimentares fluviais da Formação Barreiras do Neogeno, cuja idade é estimada entre 10 e 20 milhões de anos. Inclusive, podem ser observados registros do último avanço do nível do mar há cerca de 5 mil anos e depósitos atuais nas praias da Lagoa de Araruama.

Histórico: A história de São Pedro da Aldeia está diretamente ligada à experiência gerada da invasão francesa ao Rio de Janeiro. Do século XVI aos nossos dias, a terra aldeense refletiu em seu pequeno microcosmos as fases pelas quais passou o próprio Brasil. A cidade de São Pedro da Aldeia é originária da Aldêa de Sam Pedro do Cabo Frio, fundada pelos padres da Companhia de Jesus, em 1617, em terra de sesmaria que lhes foi concedida por Estevam Gomes, Capitão-Mor de Cabo Frio. A aldeia logo começou a receber índios das várias tribos da região em busca de alimento ou de proteção contra os Goitacazes. A cidade de Cabo Frio havia sido fundada pouco antes em 1615, após uma ação guerreira de Constantino de Menelau, Capitão-Mor do Rio de Janeiro, contra piratas franceses que ali tencionavam alojar-se definitivamente. Até as primeiras décadas do século XIX, a Freguesia da Aldeia de São Pedro foi mantida como uma reserva indígena, cujas terras eram por eles administradas. Vários viajantes europeus visitaram a Aldeia de São Pedro no início do século XIX e nos deixaram relatos muito ricos de informações, dentre eles: John Luccock, inglês; Príncipe Maximiliano, austríaco; Auguste De Saint-Hilaire, francês; Theodor Von Leithold e Ludwig Von Rango, prussianos. Em 24/04/1847, D. Pedro II visitou a cidade de Cabo Frio, tendo sido recebido pela Câmara de Vereadores e demais autoridades. Já em 10/07/1868, a Freguesia da Aldeia de São Pedro foi visitada pela Princesa Isabel e Conde d’Eu. Apesar do seu grande desenvolvimento, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, somente na República, em 1892, a Freguesia se transformou na Vila de São Pedro da Aldeia e ganhou autonomia administrativa separando-se de Cabo Frio. Em 1929, é que, finalmente, a Vila de São Pedro da Aldeia adquire foros de cidade.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

SERRA DA SAPIATIBA E SAPIATIBA MIRIM
Localização: 22º50’45.47” S; 42º11’59.71” O (O acesso se faz pela Rodovia Amaral Peixoto entre Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, na altura da Ponta da Farinha)
Descrição: Foi implantado neste local um painel do Projeto Caminhos Geológicos. As rochas da Serra de Sapiatiba e Sapiatiba Mirim são paraderivadas e sua origem está no metamorfismo de sedimentos marinhos lamosos acumulados no mar existente antes da amalgamação do Gondwana. Esta bacia sedimentar oceânica certamente durou até 600 milhões de anos atrás. Foi denominada de Bacia Búzios-Palmital e compreende as rochas da região de Búzios e das serras da Sapiatiba, Mato Grosso e Palmital.

PRAIAS DA BALEIA E PONTA DA AREIA
Localização: 22°52’59.3″ S; 42°07’28.6″ O (Praia da Baleia) | 22°52’11.5″ S; 42°06’40.1″ O (Ponta da Areia)
Descrição: Localizadas aproximadamente a 5 km do centro de São Pedro da Aldeia, as praias da Baleia e Ponta da Areia (também conhecida como Praia do Boqueirão) são praias lagunares de águas calmas. Normalmente são frequentadas, tanto por moradores como por turistas, para pesca, lazer e esportes náuticos. Em uma caminhada ao longo dessas belíssimas praias, encontram-se pontões rochosos, formados pelo afloramento de rochas metamórficas (ortognaisses e ortoanfibolitos) muito antigas, datadas em aproximadamente 2 bilhões de anos. Estruturas como, por exemplo, dobras são comuns nesses locais. Rochas se dobram em resposta aos esforços a que elas são submetidas durante eventos tectônicos. Ao serem aquecidas, por estarem em grandes profundidades, sofrem compressão devido aos processos tectônicos e, assim, deformam-se. Pense em uma barra de ferro se transformando em uma ferradura sob ação de temperatura e pressão (marteladas dadas pelo ferreiro). Da mesma forma as rochas se dobram: calor e pressão no interior da Terra. Estas rochas se deformaram durante a colisão que formou o Supercontinente Gondwana há cerca de 500 milhões de anos. Na Ponta da Areia ainda é possível apreciar um lindo pôr do sol ao lado de brechas produzidas pelo movimento de uma falha geológica. Falhas são rupturas em um bloco de rocha e se formam quando submetidas a tensões: geram zonas de fraqueza e rompem-se. Podem chegar a ter dimensões continentais. As brechas tectônicas, formadas em ambiente de falha, são um tipo de rocha caracterizada pela presença de fragmentos angulosos das rochas pré-existentes envoltos por um material mais fino. Esse tipo de rocha tem origem em zonas relativamente menos profundas da Terra do que as dobras, sendo, portanto, mais frias. Dessa forma, quebram-se quando submetidas a tensões, dando origem a esses fragmentos. Muitas das zonas de fraqueza encontradas na região estão relacionadas também à fragmentação do Supercontinente Gondwana há cerca de 130 milhões de anos. Essas falhas, que geraram terremotos no passado, foram reativadas posteriormente, produzindo essas brechas observadas na Ponta da Areia. Essa é uma história de dobras e falhas produzidas pelas forças internas da Terra. Mas, por outro lado, a areia dessas praias é fruto dos processos que ocorrem na superfície.

LAGOA DE ARARUAMA
Localização: 22°54’40.4” S; 42°21’29.2” O
Descrição: A Lagoa de Araruama é um geossítio de extrema relevância no nosso território, não só por ser a maior sistema lagunar hipersalino em estado permanente da Terra (cerca de 220 km²) como pela raridade do ecossistema em que ocorre. Banha os municípios de Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Arraial do Cabo. A existência da Lagoa representa uma parte relativamente recente da história da Terra, correspondente aos registros de avanços e recuos do nível relativo do mar nos últimos 120 mil anos, ou seja, compreende o final do período Quaternário (pequena parte do Pleistoceno e todo o Holoceno, que é o nome da época em que vivemos). As variações no nível do mar muitas vezes representam mudanças climáticas cíclicas em nosso planeta, causadas por períodos de glaciação entremeados com momentos mais quentes, os interglaciais. Essas mudanças foram fundamentais para a deposição dos sedimentos na Restinga da Massambaba e para a existência deste sistema lagunar tão especial. Pela observação da imagem de satélite é possível perceber que a Lagoa de Araruama está separada do mar por um grande cordão arenoso, onde estão instaladas pequenas lagunas, como as Lagoas Vermelha, Pitanguinha, Pernambuca, Brejo do Espinho, entre outras. Estudos e datações revelaram que este cordão é composto por dois cordões de idades bem distintas, sendo que o mais velho não ocorre em toda a extensão da Massambaba e está mais próximo à Lagoa de Araruama (chamado de barreira interna). Ele foi associado à elevação do nível do mar que ocorreu há cerca de 120 mil anos, formando uma enseada onde hoje está a Lagoa de Araruama. Mas, no final do Pleistoceno, houve um período glacial bastante intenso, que fez recuar o nível do mar por conta do congelamento de água nos polos e continentes. Este recuo fez com que sedimentos se depositassem e houvesse a formação desse cordão mais velho e interno, cuja formação também foi facilitada pelo transporte de sedimentos pelas correntes marinhas. Posteriormente, entre 7 e 5 mil anos A.P (antes do Presente), houve uma nova elevação do nível do mar. A que ocorreu há 5 mil anos é considerada a maior do Holoceno e alcançou cerca de 3 m acima do nível atual. O mar novamente invadiu a Lagoa de Araruama, destruindo parte da barreira interna. No recuo do nível relativo do mar, que ocorreu após este momento, houve a formação por sedimentação da barreira externa que, assim, deixou seu registro nas pequenas lagunas existentes no interior do cordão. Sua hipersalinidade peculiar está associada ao fenômeno da ressurgência. Esse fenômeno é causado pela Corrente das Malvinas, de águas frias, que migram pelo fundo do oceano até que alcança a Ilha do Cabo Frio, ou Ilha do Farol, em Arraial do Cabo. Com os ventos de direção NE, as águas quentes nas partes mais rasas do oceano são empurradas e essa água fria sobe à superfície. Isto desfavorece a evaporação e, consequentemente, a formação de nuvens de chuva. Além disso, os ventos também dispersam as nuvens que não encontram barreiras de montanhas para provocar a precipitação na região. Esse conjunto de fatores gera um clima semiárido. Assim, são raros os rios e córregos para abastecer a Lagoa de Araruama e todo o sistema com água doce. A insolação e os ventos fortes favorecem a evaporação da água da lagoa, tornando-a hipersaturada em sais. Esta peculiaridade é responsável pela existência histórica das salinas na região, que emprestam beleza à paisagem com seus cata-ventos. Além disso, propicia as condições para formação de estromatólitos.

Referências: Prado, T.P.M. 2016. Caracterização de Fácies e Interpretação Paleoambiental em um Testemunho de Sondagem na Lagoa Vermelha, Planície Costeira de Araruama (Região dos Lagos), RJ. Trabalho de conclusão de curso (graduação), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Departamento de Geologia 53p. | Mansur, K.L. 2010. Diretrizes para Geoconservação do Patrimônio Geológico do Estado do Rio de Janeiro: o caso do Domínio Tectônico Cabo Frio [Rio de Janeiro]. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Programa de Pós-Graduação em Geologia, 214p. | Gênese da Morfologia do Fundo da Lagoa de Araruama e Cordões Litorâneos Associados | Estudo Preliminar da Climatologia da Ressurgência na Região de Arraial do Cabo, RJ


PRINCIPAIS SÍTIOS DE INTERESSE HISTÓRICO-CULTURAL:

CAMINHOS DE DARWIN NA PRAÇA AGENOR SANTOS
Localização: 22°50’19.55” S; 42°6’13.03” O
Descrição: A Praça Agenor Santos fica no centro histórico da cidade de São Pedro da Aldeia, onde se encontra conjunto da Igreja Matriz de São Pedro, a Capela do Sagrado Coração de Jesus (que sofreu um incêndio em 2017), o Convento dos Jesuítas, o Cemitério Paroquial, além de casario colonial de grande valor arquitetônico e histórico. O centro histórico é tombado pelo IPHAN em 1938 e pelo INEPAC em 2006. O conjunto arquitetônico formado pela Igreja Matriz de São Pedro, o Convento dos Jesuítas e o Cemitério Paroquial correspondem ao aldeamento dos índios de São Pedro da Aldeia. A aldeia de São Pedro foi estabelecida para defender a região uma vez que os franceses, depois de expulsos da Guanabara, aliaram-se aos Tamoios, continuaram o contrabando de pau-brasil na região e impediam a ocupação portuguesa. Após expulsão dos franceses e o massacre dos Tamoios, a aldeia foi criada para garantir a soberania sobre o território. Assim, a aldeia de São Pedro iniciou-se, em 1617, com quinhentos índios do Espírito Santo trazidos pelos jesuítas. A igreja, considerada uma das primeiras igrejas jesuíticas do Brasil, começou a ser construída em 1620 e foi concluída em 1783. Foi feita de pedra, cal e óleo de peixe, com materiais e técnica da época. Dentro dos muros do antigo convento, encontra-se o Cemitério Paroquial com esculturas em mármore. Na praça realizam-se eventos religiosos e populares, além de possuir quiosques para alimentação, sendo um ponto de encontro para moradores e turistas. Isto torna a zona muito especial do ponto de vista da história do Brasil. Mas, outros eventos também podem ser contados a partir dali como, por exemplo, a passagem de Charles Darwin na amanhã de 10 de abril de 1832. Vindo de Araruama, o grupo em que estava o jovem Darwin, com 23 anos recém-concluídos, tomou o café da manhã em São Pedro da Aldeia. Os relatos da viagem e toda a bibliografia relacionada ao Darwin podem ser encontrados clicando aqui! Em 2009, em comemoração aos 200 anos do nascimento do naturalista inglês, foram instalados 12 painéis pelos lugares em que ele passou durante sua expedição no Rio de Janeiro, em 1832. Fazem parte do Projeto Caminhos de Darwin. Darwin viajou pelo litoral fluminense, passando por vários municípios, dentre eles, sete que, hoje, fazem parte do nosso geoparque: Araruama, Cabo Frio, Casimiro de Abreu, Macaé, Maricá, São Pedro da Aldeia e Saquarema. Passou, ainda, por Rio das Ostras, mas não registrou essa passagem em seu diário. Esses painéis são marcos da viagem e neles estão em destaque frases escritas pelo naturalista sobre cada um dos pontos visitados. No painel de São Pedro da Aldeia é possível ler seu relato desde Araruama: “Partimos animados antes que clareasse, mas as 15 milhas [24 km] de areia pesada antes de tomarmos o café da manhã em Aldeia de São Pedro praticamente destruíram os bons modos do nosso grupo”. Durante o evento de inauguração do painel, o tataraneto de Darwin, Randal Keynes, que participou da caravana de inauguração, tomou café da manhã com atores que representavam Darwin e sua comitiva chegando a cavalo na cidade. Ao visitar a Praça Agenor Santos, você poderá conhecer um pouco dessa história. Isso tudo debaixo da sombra fresca das árvores, em destaque, das palmeiras imperiais e flamboyants, e ao som do canto dos pássaros que ali se abrigam. Vale aproveitar o lindo por do sol na Lagoa de Araruama, outro de nossos patrimônios!

Referências: https://noticiasdesaopedrodaaldeia.com.br/historia-de-sao-pedro-da-aldeia-praca-2 | https://periodicos.unifap.br/index.php/fronteiras/article/viewFile/2519/reginav2n1.pdf | http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/matriz-de-sao-pedro

CASA DA FLOR
Localização: 22º51’2.83” S; 42º3’23.7” O
Descrição: Esta edificação, tombada como patrimônio estadual, está descrita da seguinte forma no Guia de Bens Tombados do Estado (www.inepac.rj.gov.br): A Casa da Flor é obra de arquitetura e escultura de seu Gabriel dos Santos, nascido em 1893, filho de ex-escravo e trabalhador nas salinas de São Pedro d’Aldeia. Montada durante décadas, pelo acúmulo de restos, no dizer do autor “coisinhas de nada” – búzios, conchas e outros depósitos da lagoa, detritos industriais, pedaços de azulejos e faróis de automóveis – a construção, ainda nas palavras de Gabriel, é uma “casa feita de caco transformado em flor”. Aparentemente, insólita e bizarra, essa fabricação onírica “eu sonho para fazer e faço” tem efeitos visuais tão lindos e inesperados quanto os muros do Park Güell, de Antonio Gaudi em Barcelona. Trata-se, sem dúvida, de um traço vital da vertente popular e traumatizada de nossa arte. Com seu sonho realizado, seu Gabriel viveu ali sob luz de lamparina, até 1986, quando faleceu aos 93 anos. Em 2001 a Casa da Flor foi restaurada.

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