São Pedro da Aldeia

Descrição Geral: É um dos principais centros históricos da região. Abriga monumentos de grande importância, como a Casa da Flor e a Igreja Matriz de São Pedro, além de praias banhadas pela Laguna de Araruama. O município já teve como principal atividade econômica a extração de sal, mas hoje o turismo move a economia.

Geologia: Apresenta rochas de 2 bilhões de anos, idade das rochas mais antigas, além de 500 milhões de anos, formadas durante a amalgamação do paleocontinente Gondwana. Afloram, ainda, depósitos sedimentares fluviais da Formação Barreiras, do Neógeno. Podem ser observados registros do último avanço do nível do mar há cerca de 5 mil anos e depósitos atuais nas praias da Lagoa de Araruama.

Histórico: A história de São Pedro da Aldeia está diretamente ligada à experiência gerada da invasão francesa ao Rio de Janeiro. Do século XVI aos nossos dias, a terra aldeense refletiu em seu pequeno microcosmos as fases pelas quais passou o próprio Brasil. A cidade de São Pedro da Aldeia é originária da Aldêa de Sam Pedro do Cabo Frio, fundada pelos padres da Companhia de Jesus, em 1617, em terra de sesmaria que lhes foi concedida por Estevam Gomes, Capitão-Mor de Cabo Frio. A aldeia logo começou a receber índios das várias tribos da região em busca de alimento ou de proteção contra os Goitacazes. A cidade de Cabo Frio havia sido fundada pouco antes em 1615, após uma ação de Constantino de Menelau, Capitão-Mor do Rio de Janeiro, contra piratas franceses que ali tencionavam alojar-se definitivamente. Até as primeiras décadas do século XIX, a Freguesia da Aldeia de São Pedro foi mantida como uma reserva indígena, cujas terras eram por eles administradas. Vários viajantes europeus visitaram a Aldeia de São Pedro no início do século XIX e nos deixaram relatos muito ricos de informações, dentre eles: John Luccock, inglês; Príncipe Maximiliano, austríaco; Auguste De Saint-Hilaire, francês; Theodor Von Leithold e Ludwig Von Rango, prussianos; e Charles Darwin, em 1832. Em 24/04/1847, D. Pedro II visitou a cidade de Cabo Frio, tendo sido recebido pela Câmara de Vereadores e demais autoridades. Já em 10/07/1868, a Freguesia da Aldeia de São Pedro foi visitada pela Princesa Isabel e Conde d’Eu. Apesar do seu grande desenvolvimento, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, somente na República, em 1892, a Freguesia se transformou na Vila de São Pedro da Aldeia e ganhou autonomia administrativa separando-se de Cabo Frio. Em 1929, é que, finalmente, a Vila de São Pedro da Aldeia adquire foros de cidade.


PRINCIPAIS GEOSSÍTIOS:

SERRAS DA SAPIATIBA E SAPIATIBA MIRIM
Localização: 22°50’45.47” S; 42°11’59.71” O (O acesso se faz pela Rodovia Amaral Peixoto entre Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, na altura da Ponta da Farinha)
Descrição: A elevação de aproximadamente 300 metros das serras da Sapiatiba e Sapiatiba Mirim possui um incrível passado geológico, dividido entre quatro grandes momentos que ficaram preservados nas rochas e minerais. As Serras estão na divisa entre Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, além de localizadas em uma região onde há sobreposição de unidades de conservação (APA da Serra de Sapiatiba e o Parque Estadual da Costa do Sol), possuindo uma alta biodiversidade, inclusive com espécies ameaçadas de extinção. O primeiro grande evento geológico que contribuiu para a formação das serras da Sapiatiba e Sapiatiba Mirim foi a cristalização das rochas mais antigas da região, chamadas de embasamento. São rochas ígneas, metamorfizadas, que fazem parte de uma unidade denominada Complexo Região dos Lagos. A partir de métodos de datação, chegou-se a uma idade estimada de 2 bilhões de anos para a formação destas rochas. Podem-se visualizar belos afloramentos nas margens da Lagoa de Araruama, em Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, e nos cortes de estrada da Via Lagos. Entretanto, as camadas de rochas sobrepostas ao embasamento, que estão presentes nas encostas das serras, indicam um tipo diferente de rocha metamórfica, cuja origem é sedimentar marinha. Este conteúdo rochoso se destaca pela concentração de minerais ricos em silício e alumínio provenientes de metamorfismo de sedimentos lamosos, portanto, depositados em um ambiente aquoso de baixa energia, comumente associado a uma bacia sedimentar oceânica, e indica o segundo grande momento para a formação geológica da Sapiatiba, quando havia um paleo-oceano entre a África e a América do Sul, que durou até aproximadamente 600 milhões de anos. Nele se desenvolveu uma bacia sedimentar denominada Búzios-Palmital. Todavia, as estruturas (falhas e dobras) e os minerais metamórficos encontrados na Sapiatiba e Sapiatiba Mirim são evidências de que sua origem não é apenas oceânica. Indicam que as rochas do embasamento foram empurradas sobre as rochas sedimentares da bacia oceânica, quando este oceano primitivo foi fechado e a África e América do Sul colidiram. Este é o terceiro grande evento geológico e é datado de cerca de 520 Ma, que é a idade do metamorfismo das rochas da Bacia Búzios-Palmital, devido às novas condições de pressão e temperatura proporcionadas pela colisão continental, quando se formaram as rochas metamórficas derivadas das sedimentares. A história da Sapiatiba continua. Depois de constituir, durante quase 400 Ma, a base de uma grande cadeia de montanhas, esta região passou pela fase de quebra continental. O oceano Atlântico começou a nascer há 130 Ma, dando início ao último grande evento geológico da região. O Supercontinente Gondwana se partiu em vários blocos e o magma que penetrou nestas fraturas provocou a criação e a expansão do assoalho oceânico, separando a América do Sul da África. Podem-se notar as rochas vulcânicas e subvulcânicas (lava que chegou à superfície ou próximo a ela) cortando as antigas rochas metamórficas. São diques de diabásio, rochas de composição semelhantes as do fundo oceânico, que ascendem como magma muito rápido à superfície e, portanto, possuem textura fina. A região da Sapiatiba, que já foi fundo de oceano e raiz de colossais cadeias montanhosas, hoje se mostra como uma proeminência singela que guarda segredos do período de formação do território do nosso Projeto de Geoparque. O local possui um painel dos Caminhos Geológicos, projeto coordenado pelo DRM/RJ, que explica toda evolução desta região de Sapiatiba e torna a visita bem mais interessante. As serras de Sapiatiba e Sapiatiba Mirim certamente reservam uma dentre as mais bonitas vistas de Iguaba Grande e são parada obrigatória para qualquer turista apreciar suas belas paisagens.

Referências: Berlim, R. 2017. Geoturismo como Estratégia para Geoconservação no Território dos Municípios Maricá, Saquarema, Araruama e Iguaba Grande – RJ. Dissertação (Mestrado), Programa de Pós-graduação em Geologia, UFRJ, 223 p. | Dalva Rosa Mansur, Cecília Bueno, Kátia Mansur, Renata Schmitt, Luigy Tiellet, Pedro Paulo de Lima e Silva. 2007. APA da Serra de Sapiatiba – Projeto Conhecer para Preservar. Ed. IPEDS – Centro de Pesquisas Segunda Edição Iguaba Grande | Área de Proteção Ambiental da Serra de Sapiatiba. INEA – Instituto Estadual do Ambiente.

PRAIAS DA BALEIA E PONTA DA AREIA
Localização: 22°52’59.3″ S; 42°07’28.6″ O (Praia da Baleia) | 22°52’11.5″ S; 42°06’40.1″ O (Ponta da Areia)
Descrição: Localizadas aproximadamente a 5 km do centro de São Pedro da Aldeia, as praias da Baleia e Ponta da Areia (também conhecida como Praia do Boqueirão) são praias lagunares de águas calmas. Normalmente são frequentadas, tanto por moradores como por turistas, para pesca, lazer e esportes náuticos. Em uma caminhada ao longo dessas belíssimas praias, encontram-se pontões rochosos, formados pelo afloramento de rochas metamórficas (ortognaisses e ortoanfibolitos) muito antigas, datadas em aproximadamente 2 bilhões de anos. Estruturas como, por exemplo, dobras são comuns nesses locais. Rochas se dobram em resposta aos esforços a que elas são submetidas durante eventos tectônicos. Ao serem aquecidas, por estarem em grandes profundidades, sofrem compressão devido aos processos tectônicos e, assim, deformam-se. Pense em uma barra de ferro se transformando em uma ferradura sob ação de temperatura e pressão (marteladas dadas pelo ferreiro). Da mesma forma as rochas se dobram: calor e pressão no interior da Terra. Estas rochas se deformaram durante a colisão que formou o Supercontinente Gondwana há cerca de 500 milhões de anos. Na Ponta da Areia ainda é possível apreciar um lindo pôr do sol ao lado de brechas produzidas pelo movimento de uma falha geológica. Falhas são rupturas em um bloco de rocha e se formam quando submetidas a tensões: geram zonas de fraqueza e rompem-se. Podem chegar a ter dimensões continentais. As brechas tectônicas, formadas em ambiente de falha, são um tipo de rocha caracterizada pela presença de fragmentos angulosos das rochas pré-existentes envoltos por um material mais fino. Esse tipo de rocha tem origem em zonas relativamente menos profundas da Terra do que as dobras, sendo, portanto, mais frias. Dessa forma, quebram-se quando submetidas a tensões, dando origem a esses fragmentos. Muitas das zonas de fraqueza encontradas na região estão relacionadas também à fragmentação do Supercontinente Gondwana há cerca de 130 milhões de anos. Essas falhas, que geraram terremotos no passado, foram reativadas posteriormente, produzindo essas brechas observadas na Ponta da Areia. Essa é uma história de dobras e falhas produzidas pelas forças internas da Terra. Mas, por outro lado, a areia dessas praias é fruto dos processos que ocorrem na superfície.

LAGOA DE ARARUAMA
Localização: 22°54’40.4” S; 42°21’29.2” O
Descrição: A Lagoa de Araruama é um geossítio de extrema relevância no nosso território, não só por ser a maior sistema lagunar hipersalino em estado permanente da Terra (cerca de 220 km²) como pela raridade do ecossistema em que ocorre. Banha os municípios de Saquarema, Araruama, Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Arraial do Cabo. A existência da Lagoa representa uma parte relativamente recente da história da Terra, correspondente aos registros de avanços e recuos do nível relativo do mar nos últimos 120 mil anos, ou seja, compreende o final do período Quaternário (pequena parte do Pleistoceno e todo o Holoceno, que é o nome da época em que vivemos). As variações no nível do mar muitas vezes representam mudanças climáticas cíclicas em nosso planeta, causadas por períodos de glaciação entremeados com momentos mais quentes, os interglaciais. Essas mudanças foram fundamentais para a deposição dos sedimentos na Restinga da Massambaba e para a existência deste sistema lagunar tão especial. Pela observação da imagem de satélite é possível perceber que a Lagoa de Araruama está separada do mar por um grande cordão arenoso, onde estão instaladas pequenas lagunas, como as Lagoas Vermelha, Pitanguinha, Pernambuca, Brejo do Espinho, entre outras. Estudos e datações revelaram que este cordão é composto por dois cordões de idades bem distintas, sendo que o mais velho não ocorre em toda a extensão da Massambaba e está mais próximo à Lagoa de Araruama (chamado de barreira interna). Ele foi associado à elevação do nível do mar que ocorreu há cerca de 120 mil anos, formando uma enseada onde hoje está a Lagoa de Araruama. Mas, no final do Pleistoceno, houve um período glacial bastante intenso, que fez recuar o nível do mar por conta do congelamento de água nos polos e continentes. Este recuo fez com que sedimentos se depositassem e houvesse a formação desse cordão mais velho e interno, cuja formação também foi facilitada pelo transporte de sedimentos pelas correntes marinhas. Posteriormente, entre 7 e 5 mil anos A.P (antes do Presente), houve uma nova elevação do nível do mar. A que ocorreu há 5 mil anos é considerada a maior do Holoceno e alcançou cerca de 3 m acima do nível atual. O mar novamente invadiu a Lagoa de Araruama, destruindo parte da barreira interna. No recuo do nível relativo do mar, que ocorreu após este momento, houve a formação por sedimentação da barreira externa que, assim, deixou seu registro nas pequenas lagunas existentes no interior do cordão. Sua hipersalinidade peculiar está associada ao fenômeno da ressurgência. Esse fenômeno é causado pela Corrente das Malvinas, de águas frias, que migram pelo fundo do oceano até que alcança a Ilha do Cabo Frio, ou Ilha do Farol, em Arraial do Cabo. Com os ventos de direção NE, as águas quentes nas partes mais rasas do oceano são empurradas e essa água fria sobe à superfície. Isto desfavorece a evaporação e, consequentemente, a formação de nuvens de chuva. Além disso, os ventos também dispersam as nuvens que não encontram barreiras de montanhas para provocar a precipitação na região. Esse conjunto de fatores gera um clima semiárido. Assim, são raros os rios e córregos para abastecer a Lagoa de Araruama e todo o sistema com água doce. A insolação e os ventos fortes favorecem a evaporação da água da lagoa, tornando-a hipersaturada em sais. Esta peculiaridade é responsável pela existência histórica das salinas na região, que emprestam beleza à paisagem com seus cata-ventos. Além disso, propicia as condições para formação de estromatólitos.

Referências: Prado, T.P.M. 2016. Caracterização de Fácies e Interpretação Paleoambiental em um Testemunho de Sondagem na Lagoa Vermelha, Planície Costeira de Araruama (Região dos Lagos), RJ. Trabalho de conclusão de curso (graduação), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Departamento de Geologia 53p. | Mansur, K.L. 2010. Diretrizes para Geoconservação do Patrimônio Geológico do Estado do Rio de Janeiro: o caso do Domínio Tectônico Cabo Frio [Rio de Janeiro]. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Programa de Pós-Graduação em Geologia, 214p. | Gênese da Morfologia do Fundo da Lagoa de Araruama e Cordões Litorâneos Associados | Estudo Preliminar da Climatologia da Ressurgência na Região de Arraial do Cabo, RJ

TÔMBOLO DA ILHA DA PONTA D’ÁGUA
Localização: 22°51’15” S; 42°8’52” O
Descrição: São Pedro da Aldeia reserva inúmeras surpresas para seus visitantes, dentre elas, localizada a cerca de 8 km do centro, às margens da Lagoa de Araruama, é possível observar uma extensa faixa de areia que adentra a Lagoa por aproximadamente 300 m e conecta a Praia da Salina à Ilha da Ponta D’água, de forma que em períodos de maré baixa é possível caminhar de um ponto a outro. Na Geografia, essa “faixa” recebe o nome de tômbolo, que nada mais é do que uma espécie de barra arenosa desenvolvida pela deposição de areia por correntes litorâneas entre a costa (Praia da Salina) e uma ilha (Ilha da Ponta D’água). Esta formação deve-se à alteração das correntes quando a massa de água encontra a ilha. Ao contornar a ilha, as correntes perdem força para o transporte dos sedimentos que vão se acumulando entre a ilha e o continente. Neste caso, as correntes que carregam os sedimentos são aquelas que circulam no interior da Lagoa de Araruama. No caso específico de São Pedro da Aldeia, a Ilha da Ponta D’água funciona como um obstáculo para a propagação da corrente litorânea e acaba gerando o processo de difração de ondas (capacidade das ondas de desviar ou contornar os obstáculos que encontram durante sua propagação). Isso faz com que, na praia localizada na zona de sombra (parte atrás da ilha), o material sedimentar transportado pela corrente de deriva litorânea vá progressivamente se acumulando ao abrigo do obstáculo. Os tômbolos podem ser simples como no caso de São Pedro da Aldeia, isto é, constituídos por um único cordão sedimentar, ou podem ser compostos (duplos, triplos, etc.), quando possuem mais do que um cordão, cada um deles formado num período diferente. Neste caso, podem existir lagunas entre os cordões. Durante a maré alta, o tômbolo pode ser total ou parcialmente submerso pela água, mas durante a maré baixa é possível caminhar sobre ele. O Tômbolo da Ilha da Ponta D’água é um local incrível, onde é possível observar em tempo real uma feição gerada pela dinâmica costeira e se divertir na travessia entre a praia e a ilha.

Referências: Correia, I.O. 2017. A influência da refração de ondas e da deriva litorânea na dinâmica do pontal arenoso de Sítio do Conde e Siribinha, Bahia, Brasil. Trabalho de conclusão de curso em Oceanografia, Instituto de Geociências, UFBA. | Glossário. Revista de Gestão Costeira Integrada – Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos | Glossário Geológico Ilustrado. Serviço Geológico do Brasil – CPRM.


PRINCIPAIS SÍTIOS DE INTERESSE HISTÓRICO-CULTURAL:

CAMINHOS DE DARWIN NA PRAÇA AGENOR SANTOS
Localização: 22°50’19.55” S; 42°6’13.03” O
Descrição: A Praça Agenor Santos fica no centro histórico da cidade de São Pedro da Aldeia, onde se encontra conjunto da Igreja Matriz de São Pedro, a Capela do Sagrado Coração de Jesus (que sofreu um incêndio em 2017), o Convento dos Jesuítas, o Cemitério Paroquial, além de casario colonial de grande valor arquitetônico e histórico. O centro histórico é tombado pelo IPHAN em 1938 e pelo INEPAC em 2006. O conjunto arquitetônico formado pela Igreja Matriz de São Pedro, o Convento dos Jesuítas e o Cemitério Paroquial correspondem ao aldeamento dos índios de São Pedro da Aldeia. A aldeia de São Pedro foi estabelecida para defender a região uma vez que os franceses, depois de expulsos da Guanabara, aliaram-se aos Tamoios, continuaram o contrabando de pau-brasil na região e impediam a ocupação portuguesa. Após expulsão dos franceses e o massacre dos Tamoios, a aldeia foi criada para garantir a soberania sobre o território. Assim, a aldeia de São Pedro iniciou-se, em 1617, com quinhentos índios do Espírito Santo trazidos pelos jesuítas. A igreja, considerada uma das primeiras igrejas jesuíticas do Brasil, começou a ser construída em 1620 e foi concluída em 1783. Foi feita de pedra, cal e óleo de peixe, com materiais e técnica da época. Dentro dos muros do antigo convento, encontra-se o Cemitério Paroquial com esculturas em mármore. Na praça realizam-se eventos religiosos e populares, além de possuir quiosques para alimentação, sendo um ponto de encontro para moradores e turistas. Isto torna a zona muito especial do ponto de vista da história do Brasil. Mas, outros eventos também podem ser contados a partir dali como, por exemplo, a passagem de Charles Darwin na amanhã de 10 de abril de 1832. Vindo de Araruama, o grupo em que estava o jovem Darwin, com 23 anos recém-concluídos, tomou o café da manhã em São Pedro da Aldeia. Os relatos da viagem e toda a bibliografia relacionada ao Darwin podem ser encontrados clicando aqui! Em 2009, em comemoração aos 200 anos do nascimento do naturalista inglês, foram instalados 12 painéis pelos lugares em que ele passou durante sua expedição no Rio de Janeiro, em 1832. Fazem parte do Projeto Caminhos de Darwin. Darwin viajou pelo litoral fluminense, passando por vários municípios, dentre eles, sete que, hoje, fazem parte do nosso geoparque: Araruama, Cabo Frio, Casimiro de Abreu, Macaé, Maricá, São Pedro da Aldeia e Saquarema. Passou, ainda, por Rio das Ostras, mas não registrou essa passagem em seu diário. Esses painéis são marcos da viagem e neles estão em destaque frases escritas pelo naturalista sobre cada um dos pontos visitados. No painel de São Pedro da Aldeia é possível ler seu relato desde Araruama: “Partimos animados antes que clareasse, mas as 15 milhas [24 km] de areia pesada antes de tomarmos o café da manhã em Aldeia de São Pedro praticamente destruíram os bons modos do nosso grupo”. Durante o evento de inauguração do painel, o tataraneto de Darwin, Randal Keynes, que participou da caravana de inauguração, tomou café da manhã com atores que representavam Darwin e sua comitiva chegando a cavalo na cidade. Ao visitar a Praça Agenor Santos, você poderá conhecer um pouco dessa história. Isso tudo debaixo da sombra fresca das árvores, em destaque, das palmeiras imperiais e flamboyants, e ao som do canto dos pássaros que ali se abrigam. Vale aproveitar o lindo por do sol na Lagoa de Araruama, outro de nossos patrimônios!

Referências: https://noticiasdesaopedrodaaldeia.com.br/historia-de-sao-pedro-da-aldeia-praca-2 | https://periodicos.unifap.br/index.php/fronteiras/article/viewFile/2519/reginav2n1.pdf | http://mapadecultura.rj.gov.br/manchete/matriz-de-sao-pedro

CASA DA FLOR
Localização: 22°51’2.83” S; 42°3’23.7” O
Descrição: “Uma casa feita de caco e transformada em flor”. Assim, Gabriel Joaquim dos Santos, o ‘Seu’ Gabriel, definiu sua construção mais importante, a Casa da Flor. Uma obra única, construída e adornada a partir de objetos reciclados e todo tipo de material que encontrava pela frente. A casa levou 62 anos (1923-1985) para ser concluída, é Patrimônio Cultural do estado do Rio de Janeiro (1983) e foi tombada como Patrimônio Nacional pelo IPHAN, em 2016. A cidade de São Pedro da Aldeia, onde, em 1882, nasceu Seu Gabriel, descendente direto da última geração de negros escravizados e índios aldeados, é margeada pela Lagoa de Araruama, cuja água é hipersalina (mais saturada em sais do que o mar) e, por este motivo, caracteriza-se pela existência histórica das salinas. Seu Gabriel trabalhou durante 14 anos (1941-1955) na Salina de José Maria. Quando a construção de sua casa já estava em andamento, Seu Gabriel conta que, inspirado por sonhos e por seu senso artístico apurado, começou a embelezar a casa com mosaicos, esculturas e enfeites diversos coletados no lixo e a partir de objetos quebrados, búzios, conchas e outros materiais da lagoa, detritos industriais, pedaços de azulejos e faróis de automóveis, que eram “coisinhas de nada”, segundo ele. Assim foi sendo esculpida a Casa da Flor, misturando a realidade com a fantasia. Seu Gabriel alfabetizou-se já adulto, de maneira quase autodidata. Dominando a escrita e leitura, registrou fatos históricos e eventos cotidianos em suas cadernetas o que auxilia os apreciadores de suas obras a assimilar a realidade e a percepção de mundo de um artista que sempre teve poucos recursos e que, mesmo involuntariamente, contribuiu muito para a popularização da arte no Brasil. A Casa da Flor foi o lar de Seu Gabriel e de seus cachorros. Dizia que não conseguiria ficar em casa com outras pessoas, por isso não foi casado e nem teve filhos. A construção não é só uma casa, é história, pois foi feita não só por objetos, mas por pensamentos e sonhos. A Casa da Flor, portanto, não é só arquitetura, mas sim uma obra de arte e poesia. Hoje, ela também é classificada como “Casa Museu”, pois gera benefícios culturais, sociais, políticos e econômicos para a população de São Pedro da Aldeia. Quem chega à casa passa, primeiramente, por uma pequena escadaria guarnecida de pedras e ladeada de flores confeccionadas por cacos de louças e telhas. Nenhum arranjo é igual ao outro. Um corredor externo delimitado por um muro igualmente feito de coisas quebradas determina um primeiro espaço de convivência, ao ar livre, onde há um banco com motivos abstratos e figurativos, como flores, folhas, cachos de uva e carrancas. Internamente, a casa, em formato de “T”, guarda outras surpresas, já que até mesmo o observador mais atento não consegue perceber todos os elementos que compõem os seus três ambientes. Após a morte do seu proprietário, a casa foi recuperada com recursos públicos e hoje é mantida por meio de projetos culturais, possuindo um tutor, o sobrinho do Sr. Gabriel, que cuida da conservação da propriedade e da recepção aos visitantes. De acordo com o parecer do IPHAN, entre as justificativas para o tombamento da Casa da Flor está o ineditismo criativo, que instiga o debate sobre os processos de produção cultural. O documento destaca que “a Casa da Flor condensa esse esforço de ordenar a desordem, a fragmentação e as oposições, de acordo com um conhecimento do valor das coisas e não da sua utilidade meramente funcional.”

Endereço: Estr. dos Passageiros, 232 – Parque Estoril – São Pedro da Aldeia / RJ | CEP: 28940-000

Referências: Barreto, I. 2020. Cabo Frio Revisitado – A Memória Regional pelas Trilhas do Contemporâneo. Editora Sophia, Capítulo 14, 432 p. | Francisco, D.M. 2014. Casa da Flor: Experimento, Poesia e Memória (um olhar museológico). Dissertação, Mestrado em Museologia e Patrimônio Mestrado, UNIRIO/MAST – RJ, 142 p. | Francisco, D.M.; Chagas, M.S. 2012. Casa da Flor: Experimento, Poesia e Memória – Um olhar Museal. IV Seminário de Pesquisa em Museologia dos Países de Língua Portuguesa e Espanhola (IV SIAM), 1:152-163 | A Casa da Flor, o Sonho de Gabriel | Zaluar, A. 2012. A Casa da Flor: tudo caquinho transformado em beleza. 122 p. | IPHAN | INEPAC-RJ